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O ESPÍRITO DA VERDADE


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FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER e WALDO VIEIRA 

Ditado por DIVERSOS ESPÍRITOS 

  

As estatuetas  

  

O diálogo, à noite, entre as duas senhoras, continuava na copa: 


– Você, minha filha, deve perdoar, esquecer... Lá diz o Evangelho que costumamos  

ver o argueiro no olho do vizinho, sem ver a trave dentro do nosso... 


– Mas, mamãe, foi um insulto! O moço parou à frente da janela, viu as minhas estatuetas e atirou a pedra! 


E Dona Balbina, senhora espírita de generoso coração, prosseguia falando à filha,  Dona Rogéria: 


– Ele é um pobre rapaz obsediado. 


– História! É uma fera solta, isto sim! 


– Mas Dona Margarida, a mãe dele, foi sempre amiga...

 

– Isso não vem ao caso... Cada qual é responsável pelos próprios atos. A senhora  sabe que ele é maior.

– Precisamos perdoar para sermos perdoados...

 

– Ser bom é uma coisa, e outra coisa é ser tolo! Darei queixa à polícia... Somente  não queria fazê-lo sem ouvi-la; contudo, Fábio e eu estamos decididos. Meu Fábio já anda  cansado do volante..

Pobre marido!... Dinheiro cavado em caminhão é duro de ganhar... 


– Meu conselho, filha, é desculpar e desculpar... 


– Mas o prejuízo é de dois mil cruzeiros, além da injúria! 


– Mesmo assim, o perdão é o melhor remédio. 


– Ah! Que será do mundo, assim, sem corrigenda, sem justiça? 


Nesse instante, alguém bate à porta. 


Ambas atendem. 


O portador comunica: 


– Um desastre! O senhor Fábio trombou uma casa e a parede caiu! 


Mãe e filha correm para o local, que se encontra entulhado de multidão, e veem a  casa acidentada. É justamente a moradia de Dona Margarida, a mãe do rapaz que atirara a  pedra.


O caminhão, num lance estouvado, derribara uma parede lateral e penetrara,  fundo, inutilizando todo o mobiliário da sala de refeições. 


Apagara-se a luz no quarteirão e as duas, sem que ninguém as reconhecesse, podiam escutar Dona Margarida, que sustentava uma vela acesa, diante do guarda de  trânsito: 


– Peço-lhe – dizia ao fiscal – não abrir processo algum. Não quero reclamações. 


– Mas, Dona Margarida – insistia o funcionário –, a senhora vai ter aqui um  prejuízo para mais de quarenta contos! 


– Não importa. Deus dará jeito. “Seu” Fábio e Dona Rogéria são meus amigos de  muito tempo. 


As duas senhoras, porém, não puderam continuar ouvindo, pois a voz irritada de  Fábio elevou-se da multidão e era necessário socorrê-lo, porque o infeliz estava ébrio. 

  

Hilário Silva 


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