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A CRISE QUE SE ESCONDE POR TRÁS DO BOOM DOS BEBÊS REBORN


POR: BIA MONTES, JORNALISTA, ATUANTE NAS ÁREAS DE ASSESSORIA POLÍTICA E GESTÃO DE CRISE. ATUOU POR 20 ANOS EM ASSESSORIA POLÍTICA E COORDENAÇÃO ESTRATÉGICA DE CAMPANHAS POLÍTICAS. HOJE, PRODUTORA DE REPORTAGEM NA TV BAND, ESCRITORA DE CONTOS E ARTIGOS DE OPINIÃO


Nos últimos anos, o fenômeno dos bebês reborn — bonecos hiper-realistas que imitam com perfeição recém-nascidos — ganhou notoriedade no Brasil e no mundo. Redes sociais exibem vídeos de pessoas cuidando dos bonecos como se fossem crianças reais: dando mamadeira, trocando fraldas, passeando em carrinhos. Em paralelo, o mercado floresce. Bonecos chegam a custar milhares de reais, com listas de espera para encomendas personalizadas. Mas por trás dessa aparente febre inocente, esconde-se uma crise social e emocional mais profunda, que merece atenção. 

  

Não se trata de julgar quem coleciona ou interage com esses bonecos por gosto estético ou hobby. O problema começa quando o reborn deixa de ser objeto e passa a ocupar o lugar de uma criança real, preenchendo vazios emocionais ou servindo como válvula de escape para traumas não tratados. Há relatos de mulheres que sofreram perdas gestacionais ou enfrentam a infertilidade e encontram nos reborns um substituto silencioso para sua dor — o que pode ser uma forma legítima de terapia, se acompanhada por acompanhamento psicológico. Mas também há casos em que a substituição se torna obsessiva, criando um mundo paralelo onde o real é evitado. 

  

Além disso, o mercado explora a sensibilidade de muitas pessoas, transformando a dor em oportunidade comercial. Influenciadoras criam conteúdo monetizado em torno dos cuidados com seus "bebês", naturalizando o comportamento como se fosse parte de uma rotina comum. Isso pode distorcer a percepção de realidade, principalmente entre jovens e pessoas emocionalmente vulneráveis. 

  

Outra polêmica gira em torno do limite entre arte, saúde mental e comércio. Até que ponto é saudável o apego a um boneco? Quando se trata de expressão emocional legítima e quando vira um sintoma de isolamento social, fuga da realidade ou até mesmo negligência em outras relações humanas reais? 

  

O boom dos bebês reborn nos força a refletir sobre a crescente solidão, o luto silencioso, as ausências emocionais e o consumo como forma de consolo. Por mais que sejam vendidos como bonecos, os reborns revelam algo mais profundo: uma sociedade que, diante de suas dores, encontra substituições que não exigem respostas, mas também não oferecem soluções. 

  

O debate não é sobre proibir ou demonizar o fenômeno, mas reconhecer que ele escancara uma ferida coletiva que precisa de mais empatia, acolhimento psicológico e políticas públicas voltadas à saúde mental. O bebê reborn pode ser um consolo, mas jamais deveria ser o único. 









 
 
 

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