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A PRESENÇA HUMANA GANHA VALOR NA ERA DA IA

há 11 horas
4 min de leitura

Por SIMONE SALLES    

JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA  



O QUE NENHUMA TECNOLOGIA CONSEGUE OFERECER POR NÓS 


Durante séculos, prestar atenção foi uma das formas mais silenciosas de demonstrar afeto. Olhar para quem fala, escutar sem interromper, acompanhar uma história até o fim, perceber uma mudança na voz. Nada disso exigia tecnologia. Bastava a presença.

 

Agora, quando a inteligência artificial responde em segundos, organiza pensamentos, sugere soluções, lembra preferências e até conversa sobre sentimentos, dedicar atenção inteira a alguém se transforma em um gesto cada vez mais valioso.

 

Pesquisas publicadas em 2026 começam a investigar o que acontece quando máquinas deixam de ser apenas ferramentas e passam a ocupar espaços tradicionalmente preenchidos por outras pessoas. Uma revisão sistemática publicada na Communications Psychology reuniu 162 estudos sobre interações entre humanos e sistemas de inteligência artificial Os pesquisadores encontraram situações em que a experiência e o desempenho nas interações com a IA se aproximam daqueles observados nas relações entre pessoas.

 

Mas também foram achadas diferenças importantes. Nas interações com agentes de inteligência artificial, os participantes demonstraram menos disposição para atitudes de cooperação e ajuda e perceberam a conversa como menos marcada pela presença de uma pessoa real, atribuindo ao interlocutor artificial menor importância como parceiro de interação. 

 

É uma distinção que ajuda a compreender o momento atual. A IA pode responder prontamente, não demonstra impaciência, está disponível de madrugada e pode adaptar a conversa ao usuário. Mas disponibilidade não é necessariamente presença.

 

Uma situação corriqueira contribui para  uma melhor percepção desses contextos. Duas pessoas estão tomando café. Uma conta algo importante que aconteceu no trabalho. A outra olha para o celular, responde rapidamente a uma mensagem e diz “estou ouvindo”. Tecnicamente, está ali. Psicologicamente, talvez esteja em vários lugares ao mesmo tempo.

 

Agora, o contrário: o telefone permanece sobre a mesa, a conversa não é interrompida, existe contato visual e a pessoa pergunta algo que demonstra ter realmente compreendido o que acabou de ouvir. Não houve nenhuma tecnologia especial. Houve atenção.

 

Essa diferença ganha importância numa época em que a inteligência artificial reduz cada vez mais o esforço necessário para obter uma resposta. Se uma máquina pode resumir um texto, escrever uma mensagem, explicar um assunto, criar uma imagem e conversar a qualquer hora, talvez um dos bens mais raros não seja mais a informação, mas a disponibilidade humana para o outro.

 

Um estudo publicado em agosto deste ano na Nature Human Behaviour ajuda a dimensionar essa mudança. Pesquisadores acompanharam 1.131 adultos que utilizavam o Character.AI e analisaram milhares de sessões reais de conversa. O trabalho encontrou associação entre o uso da IA como companhia, redes sociais menores e menor bem-estar. Essa relação foi mais forte entre pessoas que utilizavam os chatbots de maneira intensa e com elevado grau de autorrevelação. Os próprios pesquisadores destacam que os resultados variam conforme o contexto social e a forma de utilização da tecnologia. 


Outra pesquisa publicada em 2026 acompanhou mais de 2 mil adultos durante 12 meses e encontrou evidências de uma relação de mão dupla: pessoas que se sentiam menos conectadas socialmente tendiam posteriormente a procurar mais companhia em chatbots; em uma das medidas utilizadas, maior uso de chatbots também esteve associado ao aumento posterior da sensação de isolamento. Os autores, porém, classificam as conclusões como iniciais e recomendam cautela na interpretação dos resultados.

 

Isso não significa que conversar com uma inteligência artificial seja ruim. A tecnologia pode ser útil para estudar, trabalhar, organizar ideias, praticar idiomas, obter informações ou simplesmente conversar quando uma pessoa precisa de um recurso acessível. O ponto mais delicado aparece quando a conveniência começa a substituir experiências humanas que exigem reciprocidade, paciência, tolerância e disponibilidade.

 

Uma máquina pode esperar indefinidamente por uma resposta. Uma pessoa pode estar cansada. Uma máquina pode reformular uma explicação dez vezes. Um amigo pode não saber exatamente o que dizer. Uma máquina pode produzir uma resposta impecável em segundos. Uma pessoa pode fazer silêncio, e, às vezes, esse silêncio é justamente o que permite que o outro continue falando.

 

É aí que entra a chamada economia psicológica da presença. Toda vez que alguém oferece atenção integral, entrega um recurso limitado, seu tempo mental. Enquanto escuta uma pessoa de verdade, não pode simultaneamente acompanhar outra conversa, verificar uma notificação, responder a um e-mail e consultar um chatbot. Escolher estar inteiro em uma conversa significa abrir mão, ainda que por alguns minutos, de todas as outras possibilidades.

 

É por isso que esse gesto esteja se tornando mais valioso. Uma criança que chama o pai enquanto ele trabalha não pede apenas uma resposta. Assim como um idoso que repete uma história conhecida pode não estar procurando informação, mas companhia. Ou um amigo que telefona depois de um dia difícil, provavelmente não precisa de uma solução produzida em segundos e sim se sentir acolhido por alguém que ficou ali enquanto ele falava.

 

A inteligência artificial torna muitas tarefas mais rápidas. A questão é não permitir que a velocidade transforme também as relações humanas em tarefas a serem resolvidas.

 

Oferecer atenção inteira talvez seja uma das poucas coisas que nenhuma tecnologia consegue fazer por nós. Uma máquina pode ajudar a encontrar as palavras certas e até sugerir o que dizer a alguém que sofre. Mas somente uma pessoa pode decidir fechar a tela, deixar o telefone de lado, olhar nos olhos de outra pessoa e permanecer ali. Na época de respostas instantâneas, não ter pressa de responder é uma das melhores demonstrações de presença.



 
 
 

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