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A VELHA “URSS” FAZENDO HISTÓRIA NA TERRINHA


JUNCAL


A URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), nos velhos e bons tempos, usava artimanhas que seriam incomuns em qualquer outro sistema legal. Ainda hoje há seguidores. Usando um pouco de imaginação, podemos identificar e dar nomes, pois tudo tem um sistema, um nome e uma razão. 

   

A Lei Penal, no artigo 58 da URSS, entrou em vigor no dia 25 de fevereiro de 1927 e foi significativamente ampliada em 8 de junho de 1934. Nesse artigo foram introduzidas as noções de “inimigos do povo”, “traidores”, “sabotadores” — mesmo na ausência de um crime real. 

  

Dessa forma, um grande número de pessoas inocentes era preso, com penas que poderiam chegar a 25 anos de prisão, prorrogáveis sempre que fosse conveniente. Isso acontecia não apenas na Rússia, mas também em outras repúblicas da União Soviética, com artigos de mesma natureza. 

  

Prisão de inocentes anônimos, sem julgamento ou revisão. O artigo 58 era considerado uma CARTA BRANCA para a polícia secreta, que prendia qualquer pessoa considerada suspeita. Os políticos sofriam dupla punição: tanto por parte dos agentes penitenciários quanto dos criminosos comuns. 

  

Esse início é para narrar um filme que assisti sem querer, acabei revendo e recomendo a todos. O nome do filme é “CAPITÃO SOVIÉTICO” (produção russa). Conta a história de um capitão que se arrepende de seus feitos e busca uma ilusória absolvição. 

  

O “Capitão Fyodor Volkonagov”, um respeitado agente da URSS, descobre que está sendo alvo de uma conspiração política e foge, perseguido por seus ex-colegas. 

  

Em uma conversa com seu comandante, este lhe pergunta se ele acha que todos os interrogados são culpados. O capitão responde que sim. O comandante, então, rebate: “Você parece uma pessoa inteligente, mas não sabe nada sobre dialética. Se insistem em dizer que são inocentes, é porque de fato são inocentes, sem dúvida!” 

   

Ele continua: *“As pessoas que interrogamos não são terroristas, espiões ou sabotadores, mas há um motivo para virem parar aqui. O motivo é que todos são elementos não confiáveis. Por isso usamos perguntas com sentidos específicos para incriminar e não aceitamos respostas insatisfatórias. 

  

Alguns têm um histórico questionável: parentes reprimidos, deserdados, rancores. Outros são poloneses ou alemães, o que os torna potenciais espiões. Alguns simplesmente não amam nossa pátria-mãe.  


Há muitas pessoas não confiáveis por aí. É impressionante a quantidade. Vivemos cercados de inimigos. A guerra é inevitável. 

 

Esses elementos, hoje inocentes, amanhã serão culpados. Não podemos esperar que se tornem traidores, espiões, terroristas e sabotadores. Seria tarde demais. Por isso os prendemos e executamos. 


Agora, antes que saia do controle. É a chamada ‘ação preventiva contra inimigos em potencial’. Esse é o nosso trabalho.”* 

  

O capitão retruca: “O senhor está dizendo que forçamos as pessoas a confessarem coisas que não fizeram e nem planejavam fazer?” 

  

O comandante responde: “Pense. Não podemos simplesmente prendê-los e executá-los sem motivo. Seria ilegal. Vivemos em um Estado de Direito. Por isso toda punição precisa de um crime. Entendeu?” 

  

(Esse diálogo ocorre do minuto 45:51 ao 51:20.) 

 

O capitão, arrependido e em fuga, sai em busca do perdão dos familiares de pessoas que haviam sido assassinadas — atendendo a um pedido de um amigo, também morto. Uma das pessoas que ele procura é um homem que perdeu a esposa apenas porque ela contou, no mercado, uma piada que ele havia dito a ela. A piada do camelo.  


Um camelo vai a uma delegacia de polícia e diz: “Me prendam.” Perguntam: “Por quê?” E ele responde: “Porque eu cuspi em vocês.” 

   

Mais tarde, disseram que a mulher era membro de um grupo revolucionário. Ela passou por “métodos especiais”, foi forçada a se incriminar e, por essa razão, acabou executada (até parece que usava batom). 

  

Métodos especiais significavam tortura: forçar alguém a dizer o que os interrogadores queriam, e não o que a pessoa tinha a dizer. Velhos, adolescentes e até crianças eram executados sem nenhuma cerimônia. 

   

Esse arrependimento me faz lembrar de Eduardo Tagliaferro, que foi comandado por um ministro e realizava exatamente o que lhe mandavam. É a história se repetindo, a ditadura tendo o seu momento. Mas o povo sempre se levanta. Não adianta o ditador achar que “ainda tem Paris” — não terá. Terá que se contentar com Caracas, Havana, Manágua, Pyongyang… 

   

Tudo ao seu tempo: vai sobrar para quem merece. Tecnicamente, o relógio não para, e na hora certa a dívida será cobrada. A suposta soberania não terá o que negociar, pois o estrago já terá sido feito — e com muita injustiça. 

  

O filme é de 2021 e tem 1h27min de duração. Vale a pena assistir. 



 
 
 

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