BANG!... BANG!...BANG!...
- jjuncal10
- 1 de set. de 2022
- 2 min de leitura

RIBAMAR VIEGAS
ESCRITOR LUDOVICENSE
Fim de tarde de uma sexta feira na calorenta Jequi, no Piauí. A arborizada Praça da Matriz, coração da cidade, era uma verdadeira roda viva. Estudantes oriundos de diversas escolas misturavam-se aos vendedores de pipoca, picolé, pitomba; beatas de rosário na mão tagarelavam a caminho da missa das seis horas; trabalhadores retornando a pé ou de bicicletas para suas casas após mais uma semana de labuta; meninada, como sempre, bagunçando no coreto... E ali, entre cravos, rosas e palmeiras de carnaúba, sentado num banco da Praça, frontal ao Armazém Paraíba, um jovem forasteiro com características cearense bem definidas (branco, baixo, cabeça chata), a tudo contemplava.
O bonito automóvel, um Chevrolet Opala, marrom metálico, último modelo surgiu pela Rua Alberto Silva e circulou vagarosamente a Praça, chamando atenção, principalmente daquele jovem tipo cearense. No volante um senhor, que apesar do forte calor que fazia, vestia-se rigorosamente à passeio. Após a segunda volta na Praça, o carro parou com toda sua imponência diante do extático rapazola. A porta do lado do carona foi aberta e um aceno de mão do condutor do veículo fez o jovem forasteiro timidamente se aproximar e perguntar:
- O senhor me chamou? ...
- Entre, vamos dar uma voltinha.
- Eu? ...
- Sim! Você mesmo! .... Ou será que não gostou do carro? ...
Instante depois o Opala encontrava-se estacionado em um local ermo no alto da periferia da cidade.
O senhor do volante, com mão apalpando a coxa do rapazote, faceiramente perguntou:
- Da onde é o garotão?
- Sou do Crato! Vim vender rede...
- Ótimo – atalhou o coroa se desmanchando em chamego pra cima daquele vendedor de rede − que, por sua vez, não se fez de rogado. E nesse particular, quando os dois querem a coisa acontece, aconteceu: - pimba na gorduchinha!
Fato consumado, quando tudo parecia favorável ao vendedor de rede, que até esperava receber “algum” pelo seu glorioso feito, ecoou a voz do coroa, dessa feita ameaçadora:
- Você sabe quem sou eu?
- Não, senhor! – Respondeu o rapaz ainda desnudo.
- Pois então fique sabendo! Sou Raimundo Nonato, o homem mais importante dessa cidade. Sou dono do supermercado, da farmácia, da padaria, do posto de gasolina.... Portanto se você contar a alguém o ocorrido aqui agora entre-nos, olha o que lhe acontece: dizendo isso o coroa sacou de um revolver e deu três tiros para o alto:
- Bang!.. Bang!... Bang!..
O patético caboclinho tremeu nas bases. Mas, no boteco de Bochecha, centro da cidade, casa cheia, o pinguço Zé Bode, engoliu a dose de pitu, fez um bico com os beiços, passou costa da mão na boca e expressou com muita propriedade a certeza de todos da cidade ao ouvir os três estampidos:
- Eita, porra! Terminaram de comer seu Raimundo Nonato!
O padre Ambrósio, celebrando a missa, se benzeu três vezes dizendo: - Santo Cristo é a terceira vez nessa semana!
A empregada da casa de Raimundo Nonato, passando ferro na roupa, também expressou sua preocupação:
- Misericórdia! Não sei como seu Raimundo Nonato aguenta...












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