CHEGOU ATRASADO
- jjuncal10
- há 18 horas
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RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE
Uma hospitaleira cidade da Baixada Maranhense vestiu-se de amor e alegria para a comemoração dos vinte e cinco anos de sacerdócio do respeitável padre Ambrósio.
A Praça da Matriz, onde fora improvisado o altar-mor, botava gente pelo ladrão de tão cheia. O prefeito Sinduca Ferreira, o grande mentor da festa, não poupou recursos para o transporte de gente dos mais longínquos lugarejos. Ele sabia que, homenageando o boníssimo sacerdote, a popularidade dele também seria homenageada com muito votos, e as eleições já estavam batendo à porta.
A missa campal, celebrada pelo monsenhor Filadeco, oriundo da capital, com direito a banda de música e salva de fogos de artifícios, transcorria dentro da normalidade quando uma inesperada indisposição intestinal fez o prefeito Sinduca Ferreira pedir, discretamente, licença e sair do altar para trancar-se no sanitário da igreja Matriz a alguns metros da praça. Com isso, o pomposo Sacramento transcorria sem a presença efetiva do prefeito.
Após a missa, com o povão na praça já demonstrando impaciência com a ausência do prefeito para fazer o seu discurso, o padre Ambrósio, com o intuito de conter o agito da caboclada, dirigiu-se ao microfone e adiantou a sua retórica. Disse o venerável padre diante da atenção de todos:
─ Meus queridos irmãos... Já se passaram 25 anos da minha chegada aqui e posso lhes dizer que a primeira impressão que tive desta cidade foi a pior possível! Lembro-me de que o primeiro rapaz a ter-se comigo confidenciou-me que iniciara a sua vida de delito roubando uma bicicleta, em seguida passou a roubar motos, canoas, carros... roubando inclusive dinheiro dos pais, tios e avós. Confidenciou também que, quando usava droga, dispensava a namorada para relacionava-se homossexualmente com outros drogados e, até com as vacas da fazenda do pai. Sinceramente, naquele instante, pensei que eu tivesse chagado ao inferno. Mas, com o passar do tempo, fui me certificando de que aquele rapaz não passava de uma exceção neste lugar. Para o meu alívio, ele desapareceu da Paróquia... Soube que fora estudar na capital. E hoje posso afirmar a todos que esta cidade é, acima de tudo, uma terra de gente ordeira, pacata, honesta, cristã e trabalhadora!...
Nisso o prefeito retornou ao altar, juntando-se aos seus correligionários políticos, autoridades e à primeira dama, Dona Ziloca, que já não escondia sua irritação com a demora do ilustre esposo. O padre Ambrósio tratou de encerrar a sua oratória agradecendo as presenças, recebendo as merecidas palmas e, em seguida, passou a palavra ao gestor do município. Sinduca Ferreira estufou o peito e, em meio aos aplausos e apupos da multidão, iniciou o seu discurso:
─ Meus queridos conterrâneos! Parece ontem, mas já se passaram 25 anos da chegada a nossa querida cidade (pondo a mão no ombro do sacerdote) do nosso respeitável padre Ambrósio! E eu tive a honra e orgulho de ter sido o primeiro rapaz desta cidade a se confessar com o este venerável enviado de Deus ao nosso município... Viva as Bodas de Prata Sacerdotal do nosso querido padre Ambrósio!!
O que se ouviu foi: ôôôôôôôô... de decepção dos participantes da solenidade.
Sinduca Ferreira não só perdeu aquelas eleições, como perdeu também Dona Ziloca, que não suportou ser rebaixada de primeira dama para “primeira vaca”.
(No que deu chegar atrasado)










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