ENTRE A FÉ E O ALERTA
- jjuncal10
- há 3 horas
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Veronica de Oxosse Íyálorixá no Ilê Igba Òmó Aro Omin
Professora e Ativista do Movimento Mulheres Negras e luta contra a Intolerância Religiosa! Componho o Coletivo de Mulheres “Curicas Empoderadas”, atuante na área de palestras sobre autoestima e Empoderamento feminino
Ontem, o mar foi jardim. Barcos carregados de flores e preces cortaram as ondas para entregar à Grande Rainha os desejos de milhares. Mas hoje, quando a areia se esvazia dos fiéis, o que sobra é o reflexo de uma humanidade que pede muito e cuida pouco. A força de Iemanjá permanece viva, silenciosa e constante, mas ela também se manifesta no avanço implacável da maré, lembrando que o sagrado não pode ser separado da preservação.

O mar não esquece. A construção desordenada e a poluição sufocante tentam encurralar o que é imenso, mas o homem, em sua arrogância, esquece que o oceano não pede permissão; ele apenas retoma o que sempre foi seu. Quando as águas avançam sobre o asfalto e as cidades, não testemunhamos apenas um fenômeno geográfico, mas o equilíbrio da natureza cobrando o devido respeito. Iemanjá, que ampara e acolhe, é a mesma força que governa a fúria das profundezas, nos ensinando que respeitá-la exige muito mais do que jogar pétalas ao vento. Exige consciência ambiental para entender que o esgoto e o plástico ferem o corpo da própria divindade que buscamos para cura, e exige responsabilidade urbana para reconhecer que o concreto jamais calará o rugido das ondas.
Sob o comando da Rainha das Águas, a vida pede responsabilidade com o planeta. Ela nos ensina que governar é sustentar e proteger, mas como podemos pedir proteção à Mãe se agredimos o seu colo? O verdadeiro axé se manifesta no gesto de preservação e na ética do cuidado. Que a empatia que buscamos para nossas famílias e afetos se estenda também à vida marinha e aos ecossistemas que sustentam nossa existência. Iemanjá é quem aconchega e atende às necessidades dos filhos, mas suas águas sagradas nunca cessam de nos lembrar que o limite existe — e ele é sagrado.
Depois das reverências, o axé de Iemanjá zela pela vida que segue. Que cada passo dado em terra firme seja agora guiado pelo respeito profundo ao que vem das profundezas. Que a nossa fé seja tão imensa quanto o oceano e tão limpa quanto a espuma das ondas que lavam a alma, pois respeitar a natureza é, em essência, o maior ato de devoção que podemos oferecer. O mar é vida, mas é também justiça. Que saibamos navegar com humildade diante de sua força.










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