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O AVISO PRÉVIO QUE BRASÍLIA NÃO OUVIU

há 7 horas
4 min de leitura

Por CARLOS AROUCK

FORMADO EM DIREITO E ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS


O primeiro turno não foi apenas um recado eleitoral a Lula. Na leitura de parte do eleitorado, foi um aviso prévio. As urnas indicaram um nível de insatisfação maior do que aquele projetado por boa parte das pesquisas e dos comentaristas de Brasília. O eleitor sinalizou que o ciclo político atual pode estar chegando ao fim. Se essa tendência se confirmar, a carta de demissão formal será conhecida no dia 25. Até lá, resta ao campo governista tentar compreender um resultado que poucos anteciparam com clareza.

 

A explicação mais imediata está na economia do cotidiano. Famílias endividadas, juros elevados, pressão sobre as contas públicas, impostos que pesam sobre empresas e consumidores e uma sensação crescente de que o custo de vida não acompanha o discurso oficial. Nove dias antes do pleito, a proibição das bets apareceu como uma tentativa de responder a um problema que já vinha sendo explorado politicamente havia meses. Para o eleitor, a sequência pareceu evidente: primeiro o problema cresce, depois o governo apresenta uma resposta quando a eleição se aproxima. A estratégia, desta vez, não produziu o efeito esperado.

 

Há, porém, uma segunda dimensão, mais profunda. A condenação de uma cabeleireira, mãe de duas crianças, a 14 anos de prisão por ter pintado uma estátua com batom tornou-se, para muitos, símbolo de uma percepção de desproporção na aplicação da Justiça. O mérito penal específico do caso é uma questão própria do processo. O que importa politicamente é a percepção criada por ele, de que pessoas comuns, sem influência ou acesso aos círculos de poder, podem receber punições que parte da sociedade considera incompatíveis com a gravidade de seus atos.

 

Essa percepção foi ampliada por outros episódios envolvendo buscas e apreensões, quebras de sigilo, restrições a manifestações e prisões. O debate deixou de ser apenas jurídico e passou a ser político. O governo poderia ter adotado uma posição mais crítica em relação aos possíveis excessos apontados por seus adversários, mas preferiu manter proximidade com o Supremo Tribunal Federal. Para uma parcela do eleitorado, essa escolha teve um custo político.

 

O mesmo fenômeno aparece na segurança pública. O avanço de facções criminosas sobre territórios urbanos, o controle de comunidades e os ataques contra agentes públicos alimentaram a pressão por uma resposta mais dura do Estado. O debate sobre a classificação dessas organizações como terroristas permanece aberto e envolve questões jurídicas, diplomáticas e de segurança nacional. O ponto político é que parte da população entende que o Estado demorou a responder à altura do crescimento do crime organizado.

 

Durante anos, a política brasileira também se alimentou da divisão entre grupos sociais. Negros e brancos, homens e mulheres, nordestinos e sulistas, pobres e ricos, católicos e evangélicos. A estratégia de mobilizar identidades e conflitos sempre encontrou espaço no discurso político. Nas últimas semanas, a tentativa de transformar a religião em mais uma fronteira eleitoral mostrou que essa fórmula continua sendo utilizada. O resultado das urnas, entretanto, indica que ela não foi suficiente para eliminar a insatisfação acumulada.

 

Outro episódio frequentemente lembrado durante a campanha foi a declaração de Lula de que, quanto mais as pessoas estudam, menos votariam nele. A frase, independentemente da intenção original, foi interpretada por adversários como reveladora de uma contradição: um governo que depende de uma população politicamente mobilizada deveria ter como prioridade uma educação capaz de formar cidadãos críticos e independentes. A discussão é mais complexa do que uma frase isolada, mas o episódio ganhou vida própria no debate eleitoral.

 

O dado que mais chamou atenção foi o desempenho do bolsonarismo mesmo com Jair Bolsonaro inelegível e afastado da disputa eleitoral. A chegada de Flávio Bolsonaro ao segundo turno, caso esse seja o resultado consolidado, demonstra que o capital político associado ao sobrenome Bolsonaro permaneceu relevante. A explicação não está apenas no custo de vida ou na rejeição ao governo. Também envolve a insatisfação de parte do eleitorado com decisões do Supremo Tribunal Federal, especialmente aquelas relacionadas a inquéritos, restrições a manifestações e medidas cautelares.

 

O resultado também recoloca a questão do esgotamento do arranjo político que marcou as últimas décadas. A antiga polarização entre PT e PSDB estruturou boa parte da vida pública brasileira desde a redemocratização. Um lado apresentava o discurso social; o outro, a promessa de gestão econômica e responsabilidade fiscal. Apesar das diferenças, ambos disputavam dentro de um sistema político institucional que permaneceu praticamente intacto.

 

O PSDB perdeu espaço. O PT continua sendo uma força nacional, mas uma eventual derrota ampla, caso alcance também o Congresso e os governos estaduais, poderá representar uma mudança importante na correlação de forças. O espaço deixado por esse rearranjo não será ocupado automaticamente por uma única corrente. Caberá às novas lideranças definir se o próximo ciclo será apenas uma substituição de nomes no Palácio do Planalto ou uma discussão mais profunda sobre gastos públicos, segurança, educação, limites institucionais e garantias individuais.

 

Até o segundo turno, ainda há tempo de televisão, articulação política, estrutura partidária e capacidade de negociação. Mas as urnas deixaram um recado que não pode ser ignorado: uma parcela significativa do eleitorado não está mais disposta a aceitar o velho roteiro sem questionamento.

 

O dia 25 dirá se esse aviso prévio se transforma em mudança de governo ou se o sistema político encontrará forças para se recompor. Seja qual for o resultado, já parece evidente que o eleitorado mudou o tom da conversa. Brasília terá de aprender a ouvi-lo.



 
 
 

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