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O CARTOLA QUE GANHARIA TODAS AS COPAS DO MUNDO


RIBAMAR VIEGAS

ESCRITOR LUDOVICENSE


  Sempre que havia um jogo de futebol envolvendo o time de Chapéu de Couro, no sertão do Maranhão, as equipes saíam do Grêmio Recreativo, devidamente uniformizadas, uma ao lado da outra, tendo à frente o juiz da partida e atrás os organizadores do evento. A passeata seguia e só parava em frente ao casarão do coronel Silvino de Matos. O coronel, na sombra frondosa de um bacurizeiro, sempre acompanhado do seu cachorro Faísca e sem levantar-se da sua cadeira preguiçosa, fazia um aceno com a cabeça autorizando o juiz do jogo a aproximar-se. Após uma rápida conversa, o coronel afagava o cachorro e, com outro balançar de cabeça, dava a sua aprovação para o jogo. Só então, a passeata seguia para o estádio onde os desportistas locais já aguardavam para assistir a mais uma vitória certa do time da casa. 


          Ninguém em Chapéu de Couro sabia o que o coronel conversava com os juízes antes das partidas, mas todos tinham certeza de que, após aquela conversa, o time de futebol de Chapéu de Couro ganharia até da seleção campeã do mundo, caso aparecesse por aquelas bandas. Alguns afirmavam categoricamente que, se o coronel Silvino de Matos fosse um cartola da CBD (Confederação Brasileira de Desportes), o Brasil ganharia todas as Copas do Mundo que disputasse.  


          Naquele domingo, o time de Chapéu de Couro jogaria contra o time de Tum-Tum, um clássico do futebol da Chapada Maranhense.

 

          A passeata mal saíra do Grêmio Recreativo, e já estava no casarão do coronel Silvino de Matos o alfaiate Justino Dengoso informando que o juiz do jogo seria o guarda municipal Bibico e que, segundo pessoas ligadas ao guarda, a intenção daquela autoridade seria apitar o jogo dando a César o que fosse de César. 


          O coronel, espichado na sua cadeira preguiçosa, nem sequer moveu o chapéu que lhe cobria a cara para mandar o informante tomar onde as patas tomam. 


          Era justificável a preocupação do alfaiate. Todos sabiam, em Chapéu de Couro, que o irmão do guarda Bibico fora castrado pelo jagunço Sátiro a mando de Silvino de Matos. 


          Como de costume, a passeata parou em frente ao casarão do coronel que se fazia acompanhar, além do seu cachorro Faísca, do alfaiate Justino Dengoso. O guarda Bibico, na frente das equipes, com o apito pendurado no pescoço, parecia um sargento no comando do seu pelotão. Bibico olhava para o coronel com gosto de vingança na garganta. Pensava o guarda: o que será que esse filho duma égua vai me propor para o time dele ganhar o jogo? Mas comigo ele vai se lascar! Quem sabe Chapéu de Couro, perdendo esse jogo, essa peste não morra enfezado e, assim, eu me vingue uma vez por todas desse corno?... 


          O pensamento do guarda foi interrompido pelo aceno do coronel Silvino de Matos para que ele se aproximasse. O coronel lhe falou o mesmo que costumava falar a todos que se atreviam apitar um jogo de futebol em Chapéu de Couro: 


          ─ Guarda, vão assistir ao jogo de hoje alguns dos meus empregados, entre eles o negro Sátiro. Quero lhe prevenir que esses homens saíram daqui prometendo ao meu cachorro Faísca que trarão para ele os bagos do juiz se o nosso time não ganhar o jogo. Lembre-se de que, no último empate que tivemos, o juiz foi seu irmão e quem ganhou com o resultado do jogo foi Faísca. E, como domingo é meu dia de descanso, não vou estar no estádio para impedir. Por isso, trate de precaver-se, porque esses homens nunca deixaram de cumprir uma promessa, mesmo feita a um cachorro. Seu irmão duvidou disso e agora virou um “leitão” que não para de engordar.  


         ─ Mas coronel, o senhor não soube da reunião de ontem à noite lá no Grêmio?             – Impacientou-se o guardo Bibico. 


          − Soube! ─ resmungou o coronel. 


          − E não soube que ficou combinado na reunião que o jogo será de 2 X 1 para o nosso time? – indagou Bibico suando frio, apesar do calor de quase quarenta graus. 


          ─ Soube! – voltou a resmungar o coronel. 


          ─ Pois assim será, coronel – garantiu Bibico colocando convicção na voz. 


          Como de costume, o coronel Silvino de Matos afagou o seu cachorro e disse: 


         ─ É, Faísca, parece que hoje tu não vais comer os bagos de um juiz de futebol. E, com seu gesto característico de cabeça, deu a sua aprovação para a realização de mais uma vitória do time de Chapéu de Couro, desta feita, por 2 X 1. 


        O alfaiate Justino Dengoso, ainda ao lado, em posição de jarro, ouviu do coronel: 


        ─ É, Justino, já vi que, por aqui, o único que veste calça e não tem medo de perder a cachopa é você, porque é baitôla! 


       O velho coronel Silvino de Matos, afagou mais uma vez o seu atento cachorro Faísca, esticou-se na cadeira preguiçosa, cobriu os olhos com o chapéu e roncou enquanto o alfaiate Justino Dengoso     corria em direção ao estádio, batendo os calcanhares no traseiro e gritando: 


       ─ Já ganhou! Já ganhou!! Já ganhou!!! 



 
 
 

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