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O RESGUARDO DAS ALMAS: SABEDORIA DE PRETO VELHO


Veronica de Oxosse Íyálorixá no Ilê Igba Òmó Aro Omin

Professora e Ativista do Movimento Mulheres Negras e luta contra a Intolerância Religiosa! Componho o Coletivo de Mulheres “Curicas Empoderadas”, atuante na área de palestras sobre autoestima e Empoderamento feminino


Essa é uma transição linda e necessária. Na sabedoria dos nossos Avôs e Avós, a Quarta-feira de Cinzas não é sobre o fim da festa, mas sobre o recomeço da cura. Eles nos ensinam que, depois do barulho do mundo, a alma precisa do silêncio da terra e do calor do café. 


Neste dia de mansidão, o velho senta no toco, acende o cachimbo e nos convida a sacudir a poeira das estradas, lembrando que o corpo que dançou no Carnaval agora precisa do colo da terra. Na Umbanda, esse movimento começa com o cheiro das ervas queimando; é a defumação que vai entrando pelos cantos da casa, com a casca do alho e o alecrim, varrendo as energias densas e deixando apenas o perfume da paz. Enquanto o pano branco cobre o Congá em sinal de respeito e luto, os Pretos Velhos nos ensinam a preparar o banho de arruda e guiné, lavando o espírito para que nenhuma "inhaca" da rua encontre morada em nosso peito.

 

Esse recolhimento atravessa os terreiros e chega ao Candomblé como um tempo de resguardo profundo, onde o barulho dos atabaques cede lugar à introspecção e ao jejum de carnes vermelhas, honrando a palha de Omulu e a sabedoria de Ossain. É um momento de baixar a cabeça e renovar os votos com a vida, evitando as discórdias e as demandas do mundo lá fora para focar naquilo que é eterno. Entre um gole de café amargo e uma prece sussurrada, as cinzas consagradas na testa nos lembram da nossa própria fragilidade, mas também da força de quem sabe que, no silêncio da Quaresma, a proteção dos velhos é o cajado que nos firma o passo. É tempo de fechar o corpo, calar a voz e deixar que a alma se cure no balanço calmo da vovó. 



 
 
 

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