SABORES E PALAVRAS:UMA VIAGEM PELO BRASIL
- jjuncal10
- 23 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Por Nelson Neves - Pedagogo, Pós-graduado em Coordenação Pedagógica, Escritor de Literatura Infanto-Juvenil e de Romance
Seu Honório era um homem simples, mas tinha um apetite exigente, não por comidas caras ou elaboradas, mas por pratos com gosto de memória, de infância, de fogão de lenha. Um dia, enquanto saboreava uma boa canjica feita por Dona Elza, sua vizinha, teve uma ideia: “E se eu viajasse pelas cinco regiões do Brasil para provar meus pratos preferidos no tempero de cada canto? "E foi o que fez.
Mochila nas costas, apetite na frente, e um caderninho para anotar o que os temperos e as palavras lhe contassem.
Primeira parada: Norte
No Pará, sentiu o cheiro da macaxeira cozida com manteiga derretida.
— Ué... isso aqui é aipim? — perguntou.
— Aipim? Aqui é macaxeira, moço!
E aprendeu logo: no Norte, a mandioca era rainha com mil nomes, macaxeira, mandioca, e até “pau de sustança”, como um ribeirinho brincou.
A canjica, por lá, virou mungunzá, feita com milho branco e cheirinho de cravo.
— Mungunzá doce? — estranhou ele.
— Claro, homem! Aqui se come de colher e de olhos fechados de tanto gosto!
Segunda parada: Nordeste
Na Bahia, encontrou o que chamavam de cuscuz amarelinho no vapor, servido com ovo, carne de sol, manteiga de garrafa e até leite de coco, se quisesse ousar.
— Aqui, a gente come cuscuz no café, no almoço e na janta, se deixar! — disse uma baiana sorridente.
Aipim? Era macaxeira também, mas o tempero levava coentro, alho e um toque de pimenta.
— A gente cozinha com axé — disseram, e ele acreditou.
A canjica era também chamada de mungunzá, como no Norte. Mas no São João, era doce sagrado, junto com o bolo de milho, a pamonha e o quentão de gengibre.
Terceira parada: Centro-Oeste
Em Goiás, a canjica voltou a se chamar canjica, mas feita com leite condensado e paçoca por cima.
— Aqui é mais doce que beijo de vó! — disseram.
O cuscuz perdeu espaço para o arroz com pequi, mas ainda aparecia nos cafés da manhã do interior.
O aipim virou mandioca, servido cozido com sal e acompanhando tudo: da galinhada ao churrasco.
E o feijão tropeiro? Ah, esse brilhou no prato e na conversa.
— Esse feijão é de tropeiro mesmo? — perguntou Honório.
— É sim, moço! Mas o nosso leva linguiça caipira e ovo frito com gema mole.
— Hum!
Quarta parada: Sudeste
Em Minas, o feijão tropeiro foi estrela absoluta.
— O segredo é o torresmo crocante, meu filho — disse uma senhora em Tiradentes.
— E farinha de milho boa! — completou o neto dela.
O aipim era chamado também de mandioca, e muitas vezes vinha frito ou virava purê.
A canjica? Continuava canjica, mas branca, com leite, canela e às vezes amendoim.
O cuscuz? Por lá, virava cuscuz paulista, com sardinha, palmito e colorau, servido como prato de festa.
— Não é o mesmo do Nordeste não, mas é primo — disseram.
Quinta parada: Sul
No Sul, seu Honório foi chamado de “guri” e se sentiu em casa.
O feijão tropeiro ali lembrava o de Minas, mas com sotaque diferente:
— Aqui, nós botamos charque e bastante cebola — disse um gaúcho.
A mandioca era base do churrasco, cozida ou frita.
— Sem mandioca, nem fogo a gente acende — brincou um churrasqueiro.
E a canjica? A canjica ali virou curau — o doce cremoso de milho ralado com leite.
Já o cuscuz, quase desapareceu do cardápio, mas numa feira de imigrantes nordestinos em Porto Alegre, ele encontrou aquele sabor conhecido e sorriu como quem reencontra um velho amigo.
O retorno
Depois de tanta estrada, Honório voltou com o caderno cheio. Descobriu que, no Brasil, comer é também conversar. Que um mesmo prato tem mil nomes e mil temperos. Que o aipim é macaxeira, é mandioca, é sustança. Que a canjica pode ser mungunzá, curau ou memória. E que as palavras, assim como os sabores, dizem muito de onde a gente vem.
No fim, entendeu que sua fome não era só de comida, era de cultura. E que em cada prato, havia muito mais que ingredientes: havia identidade.











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