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SANTA P...


RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE


  A pequena cidade de Bacuri, no Maranhão, não chegava a ser tão pecaminosa como as cidades de Sodoma e Gomorra, mas também envergonhava Deus.


          Fazia uma noite chuvosa em Bacuri, Ivonaldo, como de costume, estava num colóquio amoroso com a cafetina Matilde ‒ dona do cabaré ‒ que, chegando ao orgasmo, gritou escandalosamente: 


           ― Ivonaldo, tu me matas!!...  Ivanaaaaaaldo, tu me maaaaaaaaaaaaaatas!!!


          Dessa vez, os gritos da cafetina na lascívia com Ivonaldo foram tão altos e agitados que acordou não somente o cabaré inteiro, mas toda redondeza.  Ivonaldo, acostumado com escândalos de mulheres na cama, limitou-se a ir ao banheiro. Ao voltar, a cafetina estava fria... inerte... morta. Aqueles gritos não foram só de gozo, foram também de um infarto fulminante. 


           Agora quem gritava era Ivonaldo, correndo nu pelo corredor, a exibir o imenso causador da desventura de Matilde:


             ― Matilde morreu!... Matilde morreu!... Logo a gritaria generalizou-se no cabaré e vizinhança. Sem dúvida, uma tragédia na pequena Bacuri. Afinal, foi Matilde quem iniciou quase todos os homens importantes e irrelevantes da cidade, além de ocultar a exploração sexual no interior do seu cabaré.


              Depois dos alvoroços, lamentos, aflições, Matilde sepultada, a chuva forte que caía no cemitério fez jorrar, de um lajedo próximo à sepultura da cafetina, um filete de água, como se Deus resolvesse lavar os pecados daquele povo. 


                   Como se não bastasse a tragédia da morte de Matilde, outra tragédia se assolou em Bacuri.  Após o sepultamento da cafetina, o lendário garanhão Ivonaldo simplesmente não conseguia mais enlouquecer prostitutas, damas e até mesmo as novinhas que se atreviam a enfrentá-lo na cama. Nem as orações e promessas para o padroeiro São Longuinho, estavam fazendo Ivonaldo voltar a sua forma de atleta de alcova. Seria o fim das sonoras fofocas das proezas de Ivonaldo com mulheres em Bacuri. Fim de mais uma atração do lugar.


              Foi aí que o representante farmacêutico Ubirajara, conhecedor das novidades, resolveu entrar na jogada. Coletou um litro da água que escorria no cemitério, entregou a Ivonaldo e deu o seu prognóstico:


              ―  Tome um copo dessa água milagrosa antes das suas transas, e pronto!


               Dito e feito: para o bem das mulheres agraciadas por Ivonaldo e a felicidade geral do povo de Bacuri, o “rei dos homens” da cidade voltou à forma, e outros “brochantes” do lugar que passaram a beber a água milagrosa da sepultura de Matilde voltaram a dar no “couro”. O milagre espalhou-se e Ubirajara tratou de colocar uma grade isolando para si o filete da água milagrosa e passou a comercializá-la para toda a Região. Logo Bacuri transformou-se numa cidade Santa. Muitas romarias ‒ a maioria de velhos ‒ provinham de todos os lugares. O prefeito Balthazar vibrava com o faturamento do município. A igreja, cujo padre Fontoura, que considerou uma blasfêmia a conotação de água milagrosa da Matilde, após as superlotações da igreja, propôs benzer o filete d`água em troca de um dízimo de 30 % do faturamento.   Ubirajara contrapropôs, o padre comprar uma quantidade da sua água milagrosa para eliminar, na igreja, a tarefa de benzimentos de outras águas. Não houve acordo. A primeira-dama, Dona Zelinda e a segunda-dama, Dona Maricota (mulher do vice-prefeito), tratam de pagar ‒ às escondidas ‒ suas promessas para São Longuinho, acendendo duas velas do tamanho e grossura da “vela mestra” de Ivonaldo. Na Câmara de Vereadores, o vereador, Zé Guterres, filho da prostituta Maria Preta e de pai desconhecido, afilhado de Matilde, em meio a um discurso inflamado, sugeriu a colocação de uma imagem de 10 metros de altura da santa Matilde na praça principal da cidade. Sugestão complementada pelo pinguço Couro Fedeu, que gritou lá do meio da galera: ‒ não esquece de fazer a imagem da santa puta Matilde agarrada na “bengala” de Ivonaldo!  Zé Guterres quis partir pra briga, mas foi contido pelos seu colega de vereança Zé do Bar.


           Em suma: a imagem da santa puta Matilde não chegou a ser edificada por falta de beatificação, mas o espertíssimo representante farmacêutico Ubirajara continuou vendendo água do cemitério com seis milagrosos comprimidos azulzinhos dissolvidos em cada litro.



 
 
 

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