
Por CARLOS AROUCK
FORMADO EM DIREITO E ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
O primeiro turno não foi apenas um recado eleitoral a Lula. Na leitura de parte do eleitorado, foi um aviso prévio. As urnas indicaram um nível de insatisfação maior do que aquele projetado por boa parte das pesquisas e dos comentaristas de Brasília. O eleitor sinalizou que o ciclo político atual pode estar chegando ao fim. Se essa tendência se confirmar, a carta de demissão formal será conhecida no dia 25. Até lá, resta ao campo governista tentar compreender um resultado que poucos anteciparam com clareza.
A explicação mais imediata está na economia do cotidiano. Famílias endividadas, juros elevados, pressão sobre as contas públicas, impostos que pesam sobre empresas e consumidores e uma sensação crescente de que o custo de vida não acompanha o discurso oficial. Nove dias antes do pleito, a proibição das bets apareceu como uma tentativa de responder a um problema que já vinha sendo explorado politicamente havia meses. Para o eleitor, a sequência pareceu evidente: primeiro o problema cresce, depois o governo apresenta uma resposta quando a eleição se aproxima. A estratégia, desta vez, não produziu o efeito esperado.
Há, porém, uma segunda dimensão, mais profunda. A condenação de uma cabeleireira, mãe de duas crianças, a 14 anos de prisão por ter pintado uma estátua com batom tornou-se, para muitos, símbolo de uma percepção de desproporção na aplicação da Justiça. O mérito penal específico do caso é uma questão própria do processo. O que importa politicamente é a percepção criada por ele, de que pessoas comuns, sem influência ou acesso aos círculos de poder, podem receber punições que parte da sociedade considera incompatíveis com a gravidade de seus atos.
Essa percepção foi ampliada por outros episódios envolvendo buscas e apreensões, quebras de sigilo, restrições a manifestações e prisões. O debate deixou de ser apenas jurídico e passou a ser político. O governo poderia ter adotado uma posição mais crítica em relação aos possíveis excessos apontados por seus adversários, mas preferiu manter proximidade com o Supremo Tribunal Federal. Para uma parcela do eleitorado, essa escolha teve um custo político.
O mesmo fenômeno aparece na segurança pública. O avanço de facções criminosas sobre territórios urbanos, o controle de comunidades e os ataques contra agentes públicos alimentaram a pressão por uma resposta mais dura do Estado. O debate sobre a classificação dessas organizações como terroristas permanece aberto e envolve questões jurídicas, diplomáticas e de segurança nacional. O ponto político é que parte da população entende que o Estado demorou a responder à altura do crescimento do crime organizado.
Durante anos, a política brasileira também se alimentou da divisão entre grupos sociais. Negros e brancos, homens e mulheres, nordestinos e sulistas, pobres e ricos, católicos e evangélicos. A estratégia de mobilizar identidades e conflitos sempre encontrou espaço no discurso político. Nas últimas semanas, a tentativa de transformar a religião em mais uma fronteira eleitoral mostrou que essa fórmula continua sendo utilizada. O resultado das urnas, entretanto, indica que ela não foi suficiente para eliminar a insatisfação acumulada.
Outro episódio frequentemente lembrado durante a campanha foi a declaração de Lula de que, quanto mais as pessoas estudam, menos votariam nele. A frase, independentemente da intenção original, foi interpretada por adversários como reveladora de uma contradição: um governo que depende de uma população politicamente mobilizada deveria ter como prioridade uma educação capaz de formar cidadãos críticos e independentes. A discussão é mais complexa do que uma frase isolada, mas o episódio ganhou vida própria no debate eleitoral.
O dado que mais chamou atenção foi o desempenho do bolsonarismo mesmo com Jair Bolsonaro inelegível e afastado da disputa eleitoral. A chegada de Flávio Bolsonaro ao segundo turno, caso esse seja o resultado consolidado, demonstra que o capital político associado ao sobrenome Bolsonaro permaneceu relevante. A explicação não está apenas no custo de vida ou na rejeição ao governo. Também envolve a insatisfação de parte do eleitorado com decisões do Supremo Tribunal Federal, especialmente aquelas relacionadas a inquéritos, restrições a manifestações e medidas cautelares.
O resultado também recoloca a questão do esgotamento do arranjo político que marcou as últimas décadas. A antiga polarização entre PT e PSDB estruturou boa parte da vida pública brasileira desde a redemocratização. Um lado apresentava o discurso social; o outro, a promessa de gestão econômica e responsabilidade fiscal. Apesar das diferenças, ambos disputavam dentro de um sistema político institucional que permaneceu praticamente intacto.
O PSDB perdeu espaço. O PT continua sendo uma força nacional, mas uma eventual derrota ampla, caso alcance também o Congresso e os governos estaduais, poderá representar uma mudança importante na correlação de forças. O espaço deixado por esse rearranjo não será ocupado automaticamente por uma única corrente. Caberá às novas lideranças definir se o próximo ciclo será apenas uma substituição de nomes no Palácio do Planalto ou uma discussão mais profunda sobre gastos públicos, segurança, educação, limites institucionais e garantias individuais.
Até o segundo turno, ainda há tempo de televisão, articulação política, estrutura partidária e capacidade de negociação. Mas as urnas deixaram um recado que não pode ser ignorado: uma parcela significativa do eleitorado não está mais disposta a aceitar o velho roteiro sem questionamento.
O dia 25 dirá se esse aviso prévio se transforma em mudança de governo ou se o sistema político encontrará forças para se recompor. Seja qual for o resultado, já parece evidente que o eleitorado mudou o tom da conversa. Brasília terá de aprender a ouvi-lo.








Por SIMONE SALLES
JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA
O QUE NENHUMA TECNOLOGIA CONSEGUE OFERECER POR NÓS
Durante séculos, prestar atenção foi uma das formas mais silenciosas de demonstrar afeto. Olhar para quem fala, escutar sem interromper, acompanhar uma história até o fim, perceber uma mudança na voz. Nada disso exigia tecnologia. Bastava a presença.
Agora, quando a inteligência artificial responde em segundos, organiza pensamentos, sugere soluções, lembra preferências e até conversa sobre sentimentos, dedicar atenção inteira a alguém se transforma em um gesto cada vez mais valioso.
Pesquisas publicadas em 2026 começam a investigar o que acontece quando máquinas deixam de ser apenas ferramentas e passam a ocupar espaços tradicionalmente preenchidos por outras pessoas. Uma revisão sistemática publicada na Communications Psychology reuniu 162 estudos sobre interações entre humanos e sistemas de inteligência artificial Os pesquisadores encontraram situações em que a experiência e o desempenho nas interações com a IA se aproximam daqueles observados nas relações entre pessoas.
Mas também foram achadas diferenças importantes. Nas interações com agentes de inteligência artificial, os participantes demonstraram menos disposição para atitudes de cooperação e ajuda e perceberam a conversa como menos marcada pela presença de uma pessoa real, atribuindo ao interlocutor artificial menor importância como parceiro de interação.
É uma distinção que ajuda a compreender o momento atual. A IA pode responder prontamente, não demonstra impaciência, está disponível de madrugada e pode adaptar a conversa ao usuário. Mas disponibilidade não é necessariamente presença.
Uma situação corriqueira contribui para uma melhor percepção desses contextos. Duas pessoas estão tomando café. Uma conta algo importante que aconteceu no trabalho. A outra olha para o celular, responde rapidamente a uma mensagem e diz “estou ouvindo”. Tecnicamente, está ali. Psicologicamente, talvez esteja em vários lugares ao mesmo tempo.
Agora, o contrário: o telefone permanece sobre a mesa, a conversa não é interrompida, existe contato visual e a pessoa pergunta algo que demonstra ter realmente compreendido o que acabou de ouvir. Não houve nenhuma tecnologia especial. Houve atenção.
Essa diferença ganha importância numa época em que a inteligência artificial reduz cada vez mais o esforço necessário para obter uma resposta. Se uma máquina pode resumir um texto, escrever uma mensagem, explicar um assunto, criar uma imagem e conversar a qualquer hora, talvez um dos bens mais raros não seja mais a informação, mas a disponibilidade humana para o outro.
Um estudo publicado em agosto deste ano na Nature Human Behaviour ajuda a dimensionar essa mudança. Pesquisadores acompanharam 1.131 adultos que utilizavam o Character.AI e analisaram milhares de sessões reais de conversa. O trabalho encontrou associação entre o uso da IA como companhia, redes sociais menores e menor bem-estar. Essa relação foi mais forte entre pessoas que utilizavam os chatbots de maneira intensa e com elevado grau de autorrevelação. Os próprios pesquisadores destacam que os resultados variam conforme o contexto social e a forma de utilização da tecnologia.
Outra pesquisa publicada em 2026 acompanhou mais de 2 mil adultos durante 12 meses e encontrou evidências de uma relação de mão dupla: pessoas que se sentiam menos conectadas socialmente tendiam posteriormente a procurar mais companhia em chatbots; em uma das medidas utilizadas, maior uso de chatbots também esteve associado ao aumento posterior da sensação de isolamento. Os autores, porém, classificam as conclusões como iniciais e recomendam cautela na interpretação dos resultados.
Isso não significa que conversar com uma inteligência artificial seja ruim. A tecnologia pode ser útil para estudar, trabalhar, organizar ideias, praticar idiomas, obter informações ou simplesmente conversar quando uma pessoa precisa de um recurso acessível. O ponto mais delicado aparece quando a conveniência começa a substituir experiências humanas que exigem reciprocidade, paciência, tolerância e disponibilidade.
Uma máquina pode esperar indefinidamente por uma resposta. Uma pessoa pode estar cansada. Uma máquina pode reformular uma explicação dez vezes. Um amigo pode não saber exatamente o que dizer. Uma máquina pode produzir uma resposta impecável em segundos. Uma pessoa pode fazer silêncio, e, às vezes, esse silêncio é justamente o que permite que o outro continue falando.
É aí que entra a chamada economia psicológica da presença. Toda vez que alguém oferece atenção integral, entrega um recurso limitado, seu tempo mental. Enquanto escuta uma pessoa de verdade, não pode simultaneamente acompanhar outra conversa, verificar uma notificação, responder a um e-mail e consultar um chatbot. Escolher estar inteiro em uma conversa significa abrir mão, ainda que por alguns minutos, de todas as outras possibilidades.
É por isso que esse gesto esteja se tornando mais valioso. Uma criança que chama o pai enquanto ele trabalha não pede apenas uma resposta. Assim como um idoso que repete uma história conhecida pode não estar procurando informação, mas companhia. Ou um amigo que telefona depois de um dia difícil, provavelmente não precisa de uma solução produzida em segundos e sim se sentir acolhido por alguém que ficou ali enquanto ele falava.
A inteligência artificial torna muitas tarefas mais rápidas. A questão é não permitir que a velocidade transforme também as relações humanas em tarefas a serem resolvidas.
Oferecer atenção inteira talvez seja uma das poucas coisas que nenhuma tecnologia consegue fazer por nós. Uma máquina pode ajudar a encontrar as palavras certas e até sugerir o que dizer a alguém que sofre. Mas somente uma pessoa pode decidir fechar a tela, deixar o telefone de lado, olhar nos olhos de outra pessoa e permanecer ali. Na época de respostas instantâneas, não ter pressa de responder é uma das melhores demonstrações de presença.








POR: MARCELO BRASILEIRO - CIDADÃO
Militar da reserva das forças armadas - Advogado com especialização em direito Marítimo, Direito Ambiental
Pós graduado pela Escola da Magistratura do Estado do Espírito Santo
Piloto e expert que para muitos desmistificou o universo da aviação e que plantou na mente de muitos jovens a curiosidade e o gosto pelas ciências compreendidas na incrível arte de voar.
Não viveu muito e nem pouco.
Viveu tempo suficiente para deixar importantes lições sobre a vida e sobre a altivez de morrer com integridade de propósitos.
Deixou um legado!

A morte física de Lito Souza não é um fim; ela é um legado primaveril sobre o qual bons ventos de boreste agora espalham flores cintilantes e as generativas sementes que irão fecundar os férteis campos do intelecto humano.
Importantes frutos do conhecimento, calcados no bem-fazer e no bem-estar humano, sem exceção.
Quantas carreiras profissionais não estão agora em curso e quantas outras não terão início a partir de todo o incentivo dado por Lito Souza?
Muitas
Não tive o privilégio de conhecê-lo de perto, mas o pouco - todavia suficiente, que pude acompanhar quanto à dignidade, o bom-humor e toda a temperança com que ele enfrentou a terrível doença, faz-me crer, sem quaisquer sombras de dúvidas, que LitoSouza era um grande homem, um bom marido, bom pai e excepcional pessoa.
Um gigante como ser humano.
Um grande brasileiro!
Vá em paz Lito!
Siga em paz nesse voo inaugural que o coloca entre as eternas nuvens dos céus que o recebem como obra e dádiva do Senhor.
À família e amigos, nossos mais profundos sentimentos.
R.I.P.


























