
RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE
Quinho, um baiano recondicionado em São Paulo, gente de fino trato, funcionário considerado na empresa em que trabalhava, pai de família exemplar, até porque vivia sob o jugo rígido da sua esposa, Dona Glorinha ─, cujas rédeas concebidas ao marido eram da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Em suma: Quinho era um anjo querubim esculpido pela esposa, só para ela... Uma flor de carolice como ela o intitulava na vizinhança. Mas Quinho sonhava em poder um dia sair pela noite, curtir a sensação de entrar em um bar tomar várias cervejas, bater-papo, conhecer outras pessoas... Tudo sem Dona Glorinha por perto, claro!
Foi aí que o Satanás resolveu entrar na jogada e tornar realidade o devaneio do prendado baiano Quinho.
Houve uma feira de exposição na cidade, e Quinho fora convocado para dissertar ao público sobre a qualidade dos produtos da empresa em que trabalhava.
No primeiro dia do evento, após fechar o concorrido stand da sua empresa, por volta das 23h, Quinho, sem Dona Glorinha por perto como ele tanto almejava, estufou o peito, entrou no seu automóvel Gol e, intuitivamente, foi direto para a zona do baixo meretrício.
Sem maiores explicações, Quinho adentrou o puteiro e mandou fechar a porta daquele estabelecimento − tudo por sua conta − e lá as coisas aconteceram. . Quinho encarnou um imperador romano e transformou as raparigas em suas escravas do sexo. E foi orgia de causar inveja ao alucinado imperador Nero e ao inveterado enófilo Baco. Dentro do ambiente, todos sem roupas e de copos nas mãos; do lado de fora, o carro de Quinho virou a biga imperial para transporte de prostitutas, transformistas, gays, pansexuais, multissexuais... Todos para abrilhantarem aquela noite do novo imperador do puteiro.
O dia raiou e, lá pelas 10h da manhã, Dona Glorinha, vizinhos, colegas de serviço, polícia e cães farejadores vasculhavam todos os lugares possíveis onde poderiam encontrar Quinho vivo ou morto. Hospitais, IML, pontos de desovas... Às 13h, o desespero de todos, principalmente de Dona Glorinha, Já era incontrolável. O médico da empresa já se fazia presente socorrendo os desmaiados...
E Quinho, lá no prostíbulo, onde ninguém jamais iria procurar um anjo querubim, uma flor da carolice, uma figura impoluta curtia eufórico mais um strip-tease em sua homenagem, balançando as pernas para cima rolando no dedão do pé, a última peça de roupa de uma “artista” gaúcha convocada às pressas para enaltecer ainda mais os momentos de festim daquele novo Calígula.
Já passava das 15h quando Quinho, num bagaço de fazer inveja a qualquer folião na quarta-feira de cinzas, chegou a sua casa. Passou pelos atônitos olhares dos vizinhos aglomerados na sala, encarou Dona Glorinha e falou alto e em bom tom para que todos ouvissem:
─ Não me pergunte nada! Eu não sei de nada! Já basta o que me aconteceu! − e jogando-se na cama, concluiu:
– Fui sequestrado pelo Satanás, mas Deus me resgatou! E adormeceu sonhando com Neuzona, Sandrinha, Edileusa, Creuza, Gaúcha, Paulete, Sacha, Juventino Boa Bunda, Paloma...
Dona Glorinha apagou a vela que queimava sob a imagem de São Longuinho, deu três pulinhos em agradecimento ao Santo pelo seu precioso achado, dispensou os presentes e defumou a casa com vasto incenso de sálvia para afugentar Satanás.







Por CARLOS AROUCK
FORMADO EM DIREITO E ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
O Supremo Tribunal
Federal vive a crise mais grave de sua história recente. O problema vem do acúmulo de decisões tomadas por um único ministro e da concentração de poder nas mãos de poucos relatores. Esse modelo ganhou força em 2019, quando a Corte abriu o Inquérito das Fake News. Naquela investigação o tribunal passou a ser ao mesmo tempo vítima, investigadora e julgadora. A medida contornou o sistema tradicional, em que uma parte acusa e outra julga, com o argumento de conter ataques às instituições. Na prática abriu um precedente perigoso de centralização do poder judicial.
No governo de Jair Bolsonaro essas decisões isoladas serviram para anular atos do Executivo e impor restrições a aliados do ex presidente. A crise atual tomou rumo inédito porque explodiu dentro do próprio tribunal. Os ministros André Mendonça e Flávio Dino anularam decisões um do outro e trocaram críticas sobre o afastamento da cúpula da Polícia Federal em inquéritos financeiros sensíveis. Em poucas horas o diretor geral da corporação foi afastado e depois reconduzido. O cenário de guerra de liminares destruiu a previsibilidade das ações da Suprema Corte e forçou o presidente Edson Fachin a intervir para tentar devolver a palavra ao conjunto dos ministros.
A sobreposição de decisões individuais sem o crivo imediato do Plenário fere princípios básicos da Constituição. Fere o devido processo legal, a separação dos Poderes e as regras que impedem um juiz de atuar em causa própria. Quando os próprios magistrados se sobrepõem às regras do jogo, a Justiça perde autoridade. O diretor geral da Polícia Federal é nomeado pelo presidente da República. Flávio Dino, indicado por Lula ao Supremo, defendeu a permanência do chefe da polícia escolhido pelo atual governo. Essa disputa deixa o Executivo de Lula no centro de uma briga que deveria ser apenas jurídica.
Às vésperas de uma eleição presidencial decisiva, a percepção de que ministros atuam em lados opostos de uma disputa política destrói a confiança na neutralidade do Judiciário. O governo Lula paga o preço dessa instabilidade porque suas instituições de segurança e de Justiça aparecem divididas e imprevisíveis. A saída exige o fim da jurisprudência da canetada individual e o retorno imediato do Supremo ao seu papel original: o de guardião colegiado e imparcial da Constituição Federal.








Mayrion Álvares da Silva
Estoquista
Instagram: @folhadebrumado
Que amemos a vida!
Que sejamos egoístas com o amor
Que sejamos hipócritas com a ilusão,
Mas, que tenhamos também
A paciência de um relógio;
Para suportarmos a solidão.
Que amemos a vida!
Que sejamos sádicos com a dor
Que sejamos cínicos com a melancolia,
Mas, que tenhamos também;
A paciência de uma estátua
Para suportarmos a nostalgia.
Que amemos a vida!
Que sejamos sensíveis com os sentimentos
Que sejamos imperdoáveis com a traição,
Mas, que tenhamos também;
A paciência de uma fotografia
Para suportarmos a desilusão.
Que amemos a vida!
Que sejamos espectadores do tempo
Que sejamos simples atores da carência,
Mas, que tenhamos também;
A paciência de um calendário
Para suportarmos a PACIÊNCIA.


























