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A FORÇA DAS MULHERES NA FÉ


Por SIMONE SALLES    

JORNALISTA, MESTRE EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA  


Neste 8 de março, quando o mundo celebra as conquistas femininas nas mais diversas áreas, a história da Igreja revela um testemunho ainda mais profundo e silencioso: o das mulheres que ajudaram a sustentar a fé ao longo dos séculos. Não foram apenas participantes da história cristã. Em diferentes épocas, com rostos e histórias distintas, mulheres ergueram comunidades, inspiraram reformas espirituais, desafiaram poderes e ofereceram a própria vida para que a chama do Evangelho não se apagasse.


Tudo começa com um “sim”. Um gesto aparentemente simples que mudou o rumo da humanidade. Maria, a jovem de Nazaré, não ocupava lugar de poder nem tinha influência social. Ainda assim, ao aceitar a missão de ser a mãe de Cristo, abriu caminho para uma revolução espiritual que atravessaria milênios. Seu “sim” não foi passivo. Foi um ato de coragem diante de um futuro desconhecido, em uma sociedade que poderia facilmente condená-la. Desde então, Maria permanece como o grande símbolo da força da fé. É nela que tantas mulheres encontram consolo quando a vida se torna pesada demais. É a mãe que conhece o silêncio das noites difíceis, a dor da perda e a esperança que resiste mesmo quando tudo parece perdido.


Mas a história da Igreja não foi escrita apenas nos templos. Muitas de suas páginas mais luminosas nasceram em arenas, prisões e fogueiras. Em 203, na antiga Cartago, duas mulheres entraram para a eternidade cristã. Perpétua era jovem, mãe de um bebê e filha de uma família nobre. Felicidade era escrava e estava grávida. Na prisão, separadas pela sociedade, tornaram-se irmãs na fé. O pai de Perpétua implorou que ela renunciasse ao cristianismo para salvar a própria vida. Bastava um gesto simbólico diante dos deuses romanos. Ela recusou, disse que não poderia se chamar de outra coisa senão cristã. Felicidade, por sua vez, temia não poder morrer ao lado dos companheiros por estar grávida. Deu à luz na prisão e, poucos dias depois, caminhou até a arena de mãos dadas com Perpétua. A nobre e a escrava enfrentaram juntas a arena do cárcere, foram degoladas testemunhando que a fé é capaz de derrubar qualquer martírio.


Ao longo dos séculos, outras mulheres se destacaram. Santa Teresa de Ávila, com seu olhar penetrante e senso de humor afiado, reformou o Carmelo e ensinou que a vida interior pode transformar o mundo. Santa Catarina de Sena, em uma época em que quase nenhuma mulher era ouvida nas decisões públicas, dialogava com papas e líderes políticos, pedindo coragem para reformar a Igreja e devolver o pontificado a Roma. Séculos depois, Santa Edith Stein, filósofa brilhante de origem judaica, encontrou em Cristo o sentido mais profundo da existência. Morreu em Auschwitz oferecendo sua vida pela paz e pelo seu povo, mostrando que a fé pode resistir até mesmo às trevas mais brutais da história humana.


Essas mulheres não foram exceções isoladas. Elas fazem parte de uma longa corrente de testemunhas que atravessa os séculos e chega aos nossos dias. Muitas vezes esse testemunho não aparece nos livros de história. Está nas mães que educam seus filhos na fé, nas religiosas que dedicam a vida aos pobres, nas mulheres que sustentam comunidades inteiras com oração, serviço e generosidade. Está também em figuras luminosas como Santa Dulce dos Pobres, que transformou compaixão em obras concretas de misericórdia, e Santa Teresa de Calcutá, que enxergou Cristo no rosto dos mais abandonados do mundo.


Celebrar o Dia da Mulher à luz da fé é reconhecer que a santidade também tem voz feminina. É perceber que a Igreja sempre foi sustentada por esse olhar que acolhe, cuida e persevera mesmo nas maiores adversidades. Onde há uma mulher que reza, que serve e que ama, ali existe uma força capaz de renovar o mundo.


Talvez por isso a figura de Maria continue sendo tão atual. Nela se encontram a coragem das mártires, a inteligência das doutoras da Igreja e a ternura das mulheres que, todos os dias, sustentam a esperança dentro de suas casas e comunidades. Maria recorda que a verdadeira grandeza nasce da confiança em Deus e da disposição de servir.


Neste tempo em que tantas vozes buscam redefinir o papel da mulher, a história cristã oferece o testemunho da mulher que transforma dor em esperança, medo em oração e fragilidade em força.



 
 
 

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