BONS ALUNOS
- jjuncal10
- 20 de jan. de 2025
- 3 min de leitura

Por Nelson Neves - Pedagogo, Pós-graduado em Coordenação Pedagógica, Escritor de Literatura Infanto-Juvenil e de Romance
Um dia qualquer, um moço qualquer, em uma cidade qualquer... O país não era um país qualquer, era o Brasil mesmo, e andava distraído esse moço quando, por acaso, viu escrito na fachada de um estabelecimento qualquer: “Aprenda como ser assaltado com segurança”.
Preocupado com a onda de assaltos pelo país, o moço resolveu entrar. Discretamente, assistiu um pouco da aula, gostou e se matriculou. A primeira aula foi boa, a segunda também, e as demais igualmente. Na última aula, foi feito um apanhado geral, e assim foi a fala do professor:
— Quando vocês forem abordados por um assaltante, não façam movimentos bruscos, não fiquem nervosos, não reajam; qualquer movimento que forem fazer, avise antes. Por exemplo: “Vou tirar o cinto; vou abrir a porta do carro; vou erguer as mãos; etc.” Caso os bandidos estejam nervosos, fiquem calmos, porque provavelmente se trata de iniciantes, e por isso são mais perigosos, pois costumam se afobar diante do perigo. Procurem mostrar que eles é que mandam, que são quem tem o controle de tudo, porque, se se sentirem seguros, ficarão mais calmos. O nervosismo do assaltado só faz aumentar o nervosismo do assaltante inexperiente ou irritar o experiente. O fato é que bandido nervoso ou irritado costuma fazer besteira, e a sua vida é que está em jogo.
— Mas não é uma vergonha a gente ter que aprender a ser assaltado em um país que se diz livre? — questionou um dos alunos, que durante todas as aulas manteve a pergunta entalada na garganta.
— Vergonha ou não, você tem uma vida a zelar. Pior é para um policial, que, se for assaltado, é bem melhor que o bandido não descubra sua identidade. Muitos não vão mais para o trabalho vestidos com a farda, nem voltam para casa com ela. Também há casos em que as fardas não são mais secas nos varais do quintal para não revelar que ali é casa de policial. Deveria ser ao contrário, mas eu não estou aqui para discutir política. A minha missão aqui é ensinar vocês a sobreviverem nesse mundo louco. Mas, se tem alguém aqui que prefere discutir com o bandido na hora do assalto a tal livre arbítrio ou o direito de ir e vir, tudo bem! Nada contra, é só esquecer tudo o que aprendeu aqui e muito boa sorte.
— O professor está certo, eu quero mesmo é sair de casa e depois voltar — disse outro aluno.
— Acho que deveríamos organizar uma passeata para exigirmos dos governantes ações que venham combater a criminalidade e tirar o povo dessa prisão domiciliar — disse outro aluno.
— É verdade, mas para isso é preciso estar vivo — disse o professor. — Mas vamos lá. Como tudo o que a gente faz precisa ser avaliado, chegou a hora da nossa avaliação. Vocês vão sair, cada um deve ir para um lado da cidade ou andar em pequenos grupos, como quiserem. Acredito que, dentro de umas duas horas ou um pouco mais, vocês já devem ter sido assaltados, então voltem. Quem chegar primeiro deve esperar os outros aqui no salão para que todos possam entrar juntos no meu escritório. Quem não voltar é porque morreu no assalto, ou seja, não aprendeu o que lhes foi ensinado. Boa sorte!
Assim foi feito, e meia hora depois, todos entraram no escritório do professor, que os questionou:
— Por que estão aqui tão cedo? Combinamos a volta em pelo menos duas horas após para que pudessem ser assaltados. Certo?
— Certo, professor. Mas ninguém precisa mais de duas horas para ser assaltado nessa cidade. Teve colega que voltou em cinco minutos e outros que nem sequer saíram, pois foram assaltados logo aqui na porta — disse um dos alunos.
Todos então receberam os seus diplomas! Talvez o mais importante de suas vidas.











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