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COSTUME


RIBAMAR VIEGAS - ESCRITOR LUDOVICENSE


Todos sabiam em Santa Inês, no Maranhão, o risco que corria o caboclo Dagoberto quando ele passou a dar “assistência” a Chiquitinha, uma das raparigas do coronel Zé Leôncio. 


         ― Já pensou se o coronel ficar sabendo de uma lasqueira dessa, Dagoberto? Ele não vai te perdoar mesmo! ‒ quem alertava Dagoberto era o seu maior amigo Pedro Peba.


        Miliana, irmã de Dagoberto, uma das afilhadas que Zé Leôncio iniciara na promiscuidade, também o alertou:


          ― Dagô (como ela o chamava), tu podes ser forte para derrubar boi e amansar cavalo, mas fazer o coronel de besta, meu irmão, sempre resultou em caixão e vela... Com tanta quenga dando mole em Santa Inês, tu vais te meter logo com quem não podes. Não vês que estás cavando tua própria sepultura?!...


         Portanto, conselho foi o que não faltou para o caboclo, mas Dagoberto não estava nem aí. Passou até a passear de mãos dadas com Chiquitinha, nos dias de feira em Santa Inês.


        Ninguém precisou contar para Zé Leôncio. Ele viu. E, calculista como todo coronel do Sertão, fez questão de acenar cordialmente para o casal, até para não espantar a presa. Mas foi só voltar para a fazenda, Zé Leôncio mandou imediatamente um mensageiro com uma carta endereçada ao seu compadre e amigo coronel Belarmino em Vitorino Freire.


         Na missiva, Zé Leôncio solicitava o melhor pistoleiro daquelas bandas para lhe prestar um grande serviço. Zé Leôncio sabia que, se utilizasse um dos seus capangas para dar cabo de Dagoberto, corria riscos. Primeiro porque Dagoberto conhecia todos e poderia ser mais rápido e botar tudo a perder. Segundo porque aproximavam-se as eleições, e Dagoberto sendo executado, mesmo numa tocaia pelos seus capangas, a sua imagem de homem íntegro poderia ficar em baixa, e seus candidatos não serem os mais votados. 


       Zé Leôncio estava na sua mesa de trabalho quando um dos seus empregados lhe comunicou:


          ― Coronel, tem um cabra aí fora querendo falar com o senhor. Não quis dizer de onde vem e muito menos o que veio fazer aqui.


          ― Já sei, já sei. Mande o homem entrar ‒ ordenou Zé Leôncio cheio de expectativa.


         Abre a porta e adentra o escritório do coronel Zé Leôncio uma figurinha raquítica, pálida, atarracada, zarolha, com o chapéu na mão, dizendo:


          ―  Com a sua licença!...  As suas ordens, coronel!...


     Zé Leôncio pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto do seu compadre Belarmino, contudo, resolveu inteirar-se e perguntou ao diminuto forasteiro:


          ― Sujeito, tu és o enviado de Belarmino?


          ― Sim, senhor!


          ― E tu sabes o tipo de serviço que eu tenho pra fazer?...


        ― O coronel Belarmino já me adiantou!...


         ― Cabra! E tu tens mesmo coragem de executar o serviço?...


         ― Coragem eu não tenho não, senhor!... O que eu tenho mesmo é costume.


        No dia seguinte, em frente ao casarão do coronel, todos os empregados, de pé, imitaram o gesto respeitoso do patrão Zé Leôncio tirando o chapéu, benzendo-se três vezes e sussurrando o Pai nosso diante a passagem do cortejo com o corpo do caboclo Dagoberto rumo ao cemitério, abatido por um tiro certeiro de um desconhecido que evadiu-se.  Na frente do cortejo, Miliana com uma rosa branca ‒ aos prantos ‒, amparada por Pedro Peba.


        “Eu, hein?!...”  uma jabiraca! (Tipo pequenez de jararaca de picada fatal).



 
 
 

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