O DEPUTADO E A PROSTITUTA
- jjuncal10
- 16 de ago. de 2025
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RIBAMAR VIEGAS
ESCRITOR LUDOVICENSE
Indignado, o deputado federal Jeferson Pichorra indaga do seu motorista e assessor:
─ Que desgraça de lugar é esse a que você me trouxe, Malaquias?...
─ Deputado, na intenção de colocar no GPS, Cruz das Almas, coloquei Cruz Credo (Cruz Credo era um mísero lugarejo onde predominavam a peste da seca e a eminência da fome), e esse pequeno descuido fez a gente parar neste fim de mundo. E o pior, além da fome e da sede de 8 horas de viagem, a bateria do carro pifou e estamos sem sinal de celular.
─ Malaquias, vamos àquela quitanda ver se tem alguma coisa para comer, depois você vai empurrar o carro até pegar no tombo – sentenciou o deputado.
O assessor adentra a quitanda e cumprimenta o dono da venda:
─ Bom dia, amigão! Este é o nosso respeitável deputado Jeferson Pichorra, e eu sou o Dr. Vivaldo Malaquias... de súbito, adentra a quitanda uma prostituta do lugar e, cortando a fala do visitante, pede:
─ Zé, bota um “rabo de galo” pra mim! ─ e, com sensualidade, aponta para o deputado e o assessor −. Quem são os fofos?... De cara, gostei dos dois!
─ São doutores políticos! ─ responde o quitandeiro servindo a bebida e acrescenta: − mas não chega para teu bico!
─ Nunca se sabe! – argumentou a prostituta.
─ Bom dia, moça! Eu sou o deputado Jeferson Pichorra e este (apontando para o assessor) é o meu assessor Vivaldo Malaquias! – apresentou-se o deputado.
─ Se eu ouvi direito, o deputado me chamou de moça?... Virgem?... Esse tipo de imundice não existe mais por aqui!... semana passada, precisou-se de quatro para carregar o andor de Nossa Senhora das Virgens, a procissão não saiu da igreja ─ satirizou sorrindo a prostituta.
─ Pode ser senhorita? – perguntou o deputado.
− Senhorita é quenga de rico! Não é o meu caso! ─ respondeu a prostituta.
─ Que tal Senhora? – continuou o deputado.
− Piorou!... Senhora é mulher que se diz de um home só... se tem muitas que não o conseguem, imagine eu! Nem pensar! ─ argumentou a prostituta.
─ E então, como devo chamá-la? ─ quis saber o parlamentar.
─ Deixa ver... acho que sou uma moça com xibiu de senhora casada, mas pode me chamar de Moita!
─ Moita?... Moita de mato? – estranhou o deputado.
− Sim! É nas moitas de mato que as coisas acontecem comigo!─ respondeu a prostituta. E continuou – bem que o deputado poderia mandar construir um “Chatô” aqui em Cruz Credo!...
− “Château”, em francês, significa castelo, mansão!... ─ arguiu o deputado.
─ Aqui é um quartinho com pinico! – esclareceu a prostituta.
─ Pode deixar, D. Moita, é uma boa causa para eu justificar os bilhões do “auxílio parlamentar” que recebo. Vou mandar construir um “Château” para as raparigas daqui de Cruz Credo, contanto que, nas eleições que se aproximam, você e suas colegas de vida fácil votem em mim! ─ condicionou o deputado, entregando à prostituta um pacotinho de santinhos com sua foto e número eleitoral.
─ Certo! – concordou a prostituta que puxou para a frente o cós da minissaia / calcinha, olhou na direção, jogou os santinhos para dentro e comentou em voz sublime:
− Aninha, tu, por acaso, levas vida fácil?...
− Por que você colocou os santinhos nas suas vestes menores?... e quem é Aninha? – quis saber o assessor.
− Não é dando que se recebe?... Pois é!... Os santinhos serão ofertados junto com Aninha aos meus fregueses e, em troca, eles votarão em massa no deputado! – esclareceu a prostituta, perguntando: mas, qual dos dois pretende conhecer Aninha primeiro?
− Por ora, vamos ficar só nos votos. Mas depois, se tiver uma moita por perto, quem sabe? ─ salientou o assessor.
A prostituta, estendendo a mão para o deputado:
─ Quinhentos reais!
─ Quinhentos reais de quê? Como diz o meu colega Tiririca, ninguém aqui “coisou” com você!
─ É um agrado para Aninha pela campanha eleitoral que ela vai fazer. Garanto que, se um dos senhores estivesse no lugar dela nessa empreitada, cobraria muito mais.
O deputado, para o assessor:
─ Malaquias, pode pagar a D Moita. Usa a verba do auxílio bacanal. – e voltando-se para a prostituta. − Você não é de se botar fora. Mas nossa intenção, neste momento, é comer!
A prostituta guardou os quinhentos reais no sutiã e continuou com a mão estendida:
─ Mais quinhentos reais de cada!
─ De quê!? – sobressaltaram-se o deputado e o assessor.
─ Da intenção de me comer, seus tarados!! – esbravejou a prostituta.
− Quando falei em comer, referi-me a suprir necessidade fisiológica, matar fome! − tentou esclareceu o deputado.
− Tá pensando que eu não vi os zoião de tarado de vocês pra cima do meu fisiológico? Quero quinhentos reais de cada. E, da próxima, cobro mais caro! – e apontando para o assessor − esse aí falou até em me levar pra moita... Ou será que isso não é intenção? ─ bradou a prostituta.
─ Acho justo os senhores pagarem à mulher, já que tiveram intenção nela. E sorte dos senhores não terem se intencionado por uma mulher comprometida. Por aqui, a conta desse tipo de intenção costuma custar muito cara – interveio o dono da venda.
─ Malaquias, seu Zé tem razão. Paga a D. Moita com verba do auxílio cabaré! – ordenou o deputado. − e dirigindo-se para ao dono da venda por favor, sirva para nós um pacote de biscoito e um litro de refrigerante.
A prostituta, após guardar o dinheiro no sutiã, mostrou sua profunda decepção com os dois:
− Mas olha!... Me trocando por biscoito! Onde já se viu?... Vê se pode?... Pois se vocês são homens que preferem biscoito a uma mulher, vão se lascar... Tô fora, cambada de baitola!... e saiu da quitanda bradando:
− Zé, inclui na conta desses “brochas” a dose de “rabo de galo”!
O deputado − olhando com interesse o balançar de quadris da prostituta saindo da venda −, dirige-se ao assessor:
─ Malaquias, seu energúmeno, suas intenções estão exterminando com o meu “auxílio parlamentar”!... vamos comer, deixar um pacote de santinho para o dono da quitanda distribuir, e sair logo deste lugar. A única coisa que poderíamos aproveitar deste fim de mundo – além de votos −, era a prostituta Moita... provocante... astuta... se fosse uma congressista, com certeza adotaria a expressão coloquial daquela senadora: “relaxe e goze!”










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