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21 de Março: O Dia em que o Brasil Reverencia o Axé das Matrizes Africanas


Veronica de Oxosse Íyálorixá no Ilê Igba Òmó Aro Omin

Professora e Ativista do Movimento Mulheres Negras e luta contra a Intolerância Religiosa! Componho o Coletivo de Mulheres “Curicas Empoderadas”, atuante na área de palestras sobre autoestima e Empoderamento feminino


“Antes mesmo de ser escrita nos livros, a história das matrizes africanas já pulsava nos tambores, na fé dos terreiros e na força de um povo que transformou dor em ancestralidade, resistência e Axé.”


Em 21 de março, o Brasil se volta para reconhecer, reverenciar e celebrar uma herança espiritual, cultural e ancestral que atravessa séculos: as Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e as Nações do Candomblé.


Instituída oficialmente em 2023, por meio de lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a data representa muito mais do que uma comemoração no calendário. Ela se tornou um marco de memória, resistência e reconhecimento para milhões de brasileiras e brasileiros que mantêm viva a fé nos Orixás, Voduns e Inkices — divindades que chegaram ao país junto com os povos africanos trazidos à força durante o período da escravidão.


Celebrar este dia é reconhecer que as religiões de matriz africana — como o Candomblé, a Umbanda, o Batuque, o Tambor de Mina, entre tantas outras expressões do sagrado afro-brasileiro — são guardiãs de saberes ancestrais profundos. Nessas tradições vivem conhecimentos sobre espiritualidade, cura, respeito à natureza, música, dança, oralidade e modos de vida comunitários que atravessaram gerações.


Durante séculos, no entanto, essas tradições foram alvo de perseguição, criminalização e preconceito. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados apreendidos, sacerdotes e sacerdotisas presos e comunidades inteiras silenciadas pela intolerância religiosa e pelo racismo estrutural. Ainda assim, a força da ancestralidade jamais se apagou. Nos cantos, nos toques de tambor, nos rituais e nas memórias transmitidas pelos mais velhos, o Axé continuou vivo, sustentando identidades e reconstruindo dignidade.


A escolha do 21 de março também carrega um simbolismo profundo, pois coincide com o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1966. A data recorda o Massacre de Sharpeville, ocorrido na África do Sul em 1960, quando 69 pessoas negras foram assassinadas durante uma manifestação pacífica contra as leis racistas do regime do apartheid.


Assim, este dia se transforma em um poderoso chamado à memória e à consciência coletiva: lembrar o passado para construir um futuro em que fé, identidade e ancestralidade possam existir com respeito e liberdade.


Em diferentes regiões do Brasil, movimentos sociais, terreiros e organizações comunitárias utilizam essa data para fortalecer a luta por direitos e reconhecimento das comunidades tradicionais de matriz africana. Dentro desse contexto, destaca-se também o trabalho realizado pela Comissão Guiados pelo Axé, acompanhada pelo Instituto Guaicuy.


A comissão atua no processo de reparação relacionado ao desastre-crime da mineradora Vale em Brumadinho, ocorrido em 2019. Formada por lideranças religiosas de matriz africana, sacerdotes, sacerdotisas e representantes comunitários, a iniciativa busca garantir que os impactos sofridos pelos povos de terreiro também sejam reconhecidos. Muitos espaços sagrados, fontes naturais utilizadas em rituais e territórios espirituais foram afetados, revelando que a tragédia também atingiu profundamente dimensões culturais e religiosas dessas comunidades.


Neste 21 de março, prestamos homenagem às mulheres e homens que seguem firmes nessa caminhada — verdadeiros guardiões do Axé, que lutam para que justiça, memória e dignidade caminhem juntas.


No Rio de Janeiro, cidade profundamente marcada pela presença das tradições afro-brasileiras, a data também inspira reflexões, encontros e manifestações culturais. Terreiros, coletivos culturais, pesquisadores e movimentos de defesa da liberdade religiosa costumam promover rodas de conversa, celebrações espirituais, caminhadas inter-religiosas pela paz, apresentações de dança afro e rodas de capoeira.


Regiões historicamente ligadas à cultura afro-brasileira, como Madureira, Oswaldo Cruz, Irajá, a Baixada Fluminense e a região portuária conhecida como Pequena África, frequentemente se tornam espaços vivos de celebração, memória e reafirmação da identidade negra.


Mais do que uma data simbólica, o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas representa um convite à consciência coletiva. Valorizar essas tradições é reconhecer a contribuição fundamental dos povos africanos e afro-brasileiros na construção cultural, espiritual e social do Brasil.


Também é um lembrete de que o combate ao racismo religioso e à intolerância ainda é um desafio presente. Defender os terreiros e respeitar as religiões de matriz africana é defender a diversidade, a liberdade de crença e o direito de cada povo manter viva sua relação com o sagrado.


Que neste 21 de março possamos silenciar por um instante para ouvir os tambores da ancestralidade que ainda ecoam em nossos corações. Que os Orixás abençoem cada terreiro, cada filho e filha de santo, cada guardião e guardiã dessas tradições sagradas que atravessaram o tempo para chegar até nós. Que o respeito floresça onde antes houve intolerância, que a sabedoria dos mais velhos continue iluminando os caminhos e que o Axé das nossas raízes siga fortalecendo gerações. Porque enquanto houver memória, fé e comunidade, a força das matrizes africanas continuará viva, pulsante e transformadora neste país.


Axé.








 
 
 

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