O HERÓI DO SERTÃO
- jjuncal10
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RIBAMAR VIEGAS
ESCRITOR LUDOVICENSE
No Povoado de Tapera, na Bahia, uma criatura de nome Remijo não escolhia hora nem local para denegrir a reputação do sanguinário cangaceiro Virgulino Ferreira – o Lampião. Dizia Remijo:
─ Esse tal de Lampião não passa de uma lamparina, de um fifó, de uma cera de vela! Pra mim, esse cangaceiro não é de nada! Não vale o moqueado que come! O chibé que bebe! O gibão que veste!
─ Compadre Remijo, notícia ruim pula cancela! Se o Capitão Virgulino souber dessas coisas que vosmecê anda dizendo, ele vem aqui, tira o coro do seu corpo vivo e põe sal na sua carcaça, de quebra, mata um bocado de nós e ainda bota fogo nas nossas casas! − preocupava-se o roceiro Licurgo Perna Manca.
─ Capitão de merda! – replicava Remijo. E tome insultos: − pra mim esse tal de Virgulino não passa de um covarde! De um canalha! De um cabra safado! Quiçá, de um baitola!
Lampião, ao saber das ofensas de Remijo, arrancou a punhalada um olho do informante e terminou com a vida do infeliz com um tiro de fuzil no buraco do olho arrancado (o bandoleiro considerou traição daquele jagunço não o ter informado antes de tamanho agravamento para com a sua “imaculada” pessoa).
O sol se escondia quando Lampião e seu bando de cangaceiros invadiram Tapera. Nenhuma alma viva nas ruas.
Os homens fugiram para a caatinga e as mulheres, velhos e crianças rezavam trancados dentro das casas e da capela − sem o padre −, que tratou de se esconder no fundo de uma cacimba, respirando através de uma taboca de bambu.
Lampião, no alto do seu cavalo, soltava brasa pelas narinas dando ordem ao seu bando:
─ Sereno, Curió e Bananeira, fechem a outra saída do povoado! Jitirana e Volta Seca vão de casa em casa e matem todos que se negarem a dar informação sobre o paradeiro do homem! Eu, Corisco e o resto do bando aguardamos aqui! ─ tô cuspindo no chão quente e quero o cabra na minha presença antes do cuspe secar!
─ Não precisa nada disso! – a voz veio de uma ruela próxima, para onde foram apontados fuzis, mosquetões, cravinotes, carabinas e pistolas. A figura raquítica de Remijo surgiu em meio à poeira, caminhando tranquilamente na direção do bando.
─ Não atirem!!! Quero o cabra vivo!!! – berrou Lampião.
Remijo aproximou-se e Lampião quis logo saber:
─ É vosmecê o cabra que anda me faltando com respeito por essas bandas?
− Sou eu mesmo! – respondeu Remijo, encarando o irado bandoleiro.
─ Pois repita o que vosmecê anda dizendo ao meu respeito!
─ Pra mim, tu e teu bando de cangaceiros não passam de um magote de covardes, ladrões, assassinos, vagabundos... Uma corja de cabras safados!
Tal qual um gato, Corisco (o diabo louro) saltou do cavalo, encostou a ponta afiada do punhal no pescoço do passivo Remijo e gritou para Lampião:
─ Eu sangro o cabra, Capitão???
Após alguns segundos de reflexão, Lampião deu o veredito:
─ Não, Corisco! Esse sertão tá cheio de cabra frouxo. Deixa este cabra vivo pra ele procriar! Quem sabe ele consiga botar no mundo uns cabras de coragem igual a ele?... Vamos embora preparar a tocaia no Raso da Catarina para descarregar nossa raiva nos macacos da volante que estão a caminho!
Quando o novo dia raiou em Tapera, a multidão chegou à casa de Remijo para saudar o novo herói do sertão. O homem que sozinho botou pra correr Lampião e seu bando de cangaceiros. Para decepção de todos, Remijo estava pendurado numa corda. Enforcado. Morto. Suicidou-se.
Elementar! Só um suicida (um louco) faria o que Remijo fez.











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