O HOMOFÓBICO CINDERELA
- jjuncal10
- 25 de nov. de 2023
- 4 min de leitura

RIBAMAR VIEGAS
ESCRITOR LUDOVICENSE
Alexandre Massa Bruta, lutador de MMA, Muay Thai, Jiu-jitsu, ganhador de troféus e cinturões em lutas sangrentas, venerado pela mulherada, mesmo sabendo que homofobia é crime no Brasil, não escondia seu preconceito, seu ódio, para com os do gênero:
─ “Bicha” comigo é na porrada! – bradava Massa Bruta, sem medo de ser enquadrado na lei. Estranho é que Massa Bruta, de vez enquanto, surpreendia-se desejoso de pagar com beijo cada soco dado no adversário. E essa coisa estranha fez o bravo Alexandre Massa Bruta procurar um analista especialista no assunto no Rio de Janeiro, onde morava.
─ Você é casado, mora com alguém, tem alguma fantasia? – perguntou o analista.
─ Não sou casado! Moro com minha mãe! Nas sextas-feiras, à noite, costumo dar um pulinho na Cinelândia. No mais, treino e luto. Estou invicto em 12 lutas. Disputo o cinturão de
campeão brasileiro no próximo combate!
─ Mas, paira em você uma probabilidade sobre bissexualidade, gay, travesti? – indagou o analista.
─ Sem essa de “bicha” para cima de mim! Estou aqui para tratar um disturbiozinho e, por curiosidade já que estou aqui, gostaria que você dissertasse sobre tipos de “bichas” que já analisou! − bradou o pugilista.
─ Atendo o seu pedido, desde que algum tipo especificado se assemelhe com o seu caso, você se manifeste! Se não, o seu caso pode ser um simples surto psicótico ou um disturbiozinho como você diz! – condicionou o analista.
─ Tudo bem! O importante é conhecer a fundo à espécie! – debochou Massa Bruta.
─ Vamos lá! Por sua conta e risco! – observou o analista, e começou:
1º) Bicha louca ─ Era a bicha mais rampeira que existia. Era debochada, nojenta, costumava. beber muito, fumar e até usar drogas. Adorava um barraco;
2º) Xengo ─ Era a bicha que se encarnava num professor e usava como tática chanta-
gear com notas escolares baixas os seus alunos prediletos;
3º) Baitôla ─ Era a bicha − predominantemente nordestina − que, quando descoberta,
pegava a primeira carona com destino ao sul maravilha para não morrer de porrada do pai;
4º) Qualira ─ Era uma bicha festiva, adorava carnaval, reeguer, andar com mulheres,
vestir-se chamando atenção, e fazia questão de não esconder que é bicha (era uma exclusividade de São Luís do Maranhão);
5º) Colírio ─ Era aquela que ninguém imagina que era bicha. Vestia-se como homem,
andava como homem e falava como homem − chegava até a coçar o saco –
mas, se bobeasse, “ela” ataca principalmente quando bebia;
6º) Kio ─ Esse tipo de bicha normalmente usava óculos − nem que fosse na testa era super precavida, tanto que evitava parceiros avantajados. O alvo predileto do Kio era a meninada. Gostava de se disfarçar de treinador mirim;
7º) Poderosa ─ Era a bicha exatamente o contrário do Kio. Normalmente era (banda-voo) esnobe, ostensiva e topava tudo;
8º) Fruta ─ Era a bichinha filhinho de papai. Meiga, frágil, pálida, de gestos delicados,
quase sempre criada pela vó. Tinha como esporte predileto jogar bola-de -gude no carpete. Cresceu usando camisolinha. Tímida, tanto que, quando solicitada, não sabia dizer não;
9º) Homossexual ─ Era a bicha que para camuflar suas atividades, tinha como hábito trair a
mulher com o cunhado em troca de emprestar “algum” - quando não era dinheiro, era carro ou moto ou jet-ski;
10º) Meigo ─ Era a bicha que nunca dava certeza que era. A gente desconfiava, alguém nos dizia que “ela” não era, a gente acreditava. Por isso era conhecida por Meigo – abreviatura de meio gay;
11º) Boneca ─ Era a mais fêmea das bichas. Adorava ser chamado por nomes femininos. Na realidade se achava mesmo uma boneca. E como toda boneca, normalmente, tinha a bunda malfeita;
12º) Boiola ─ Era a bicha moderna. Praticava aeróbica, teatro, malhava em academia de ginástica, fingia que namorava uma colega – aliás, o boiola esta sempre cercado de mulheres, − mas, no fundo, no fundo, o seu objetivo mesmo era soltar a franga.
─ Ainda bem que detesto teatro! – manifestou-se Massa Bruta.
13º) Pederasta ─ Era a bicha aposentada. Envelhecida, bunda murcha, virara lixo. A rica
se virava como diretor, dirigente, estilista... e a menos rica se virava como pai-de-santo, cabeleireiro, massagista...
14º) “Viado” ─ Era o clássico das bichas. Normalmente era pobre, falava fino, vivia desmunhecando, fazia de tudo para aparecer, inclusive se travestia. Mas nunca passava de um “viado”;
15º) Príncipe ─ Era a bicha ativa. Encarava qualquer bicha passiva, desde que pintasse grana.
Costumava usar disfarce − peruca, barba, bigode postiço. Tendo como fantasia encarnar um Príncipe Encantado, desde que pintasse uma Cinderela;
─ Uhum! Príncipe Encantado?! Pareceu-me peculiar, mas continue! − murmurou Massa Bruta.
─ Vejamos o último tipo – anunciou o analista.
:
16º) Cinderela ─ Era a bicha halterofilista, praticava lutas marciais, tinha bumbum empina-
do, gostava de mostrar-se agressivo em público dando uma de machão.
Na Cinelândia, encarava uma Cinderela, vestia-se e falava fino como tal, realizando-se nos braços do seu Príncipe Encantado.
─ Bastante plausível Cinderela. Mas nada a ver! – exaltou Massa Bruta.
─ Tudo a ver! – confirmou o analista.
─ Como tudo a ver? – questionou o ansioso Massa Bruta. O especialista colocou a peruca do seu disfarce de príncipe e concluiu:
─ Elementar: eu sou o Príncipe Encantado das noites de sextas-feiras na Cinelândia. Portanto, você não está acometido de nenhum surto psicótico ou disturbiozinho! – garantiu o analista.
─ E por acaso, você está achando que sou homossexual, gay, travesti? – atalhou o ansioso Alexandre Massa Bruta.
─ Não! “Bicha” mesmo!!! – concluiu o analista.
(Alexandre Massa Bruta, como a maioria dos homofóbicos, era machão de si mesmo)











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