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É MELHOR TOMAR SORVETE


Por Nelson Neves - Pedagogo, Pós-graduado em Coordenação Pedagógica, Escritor de Literatura Infanto-Juvenil e de Romance


O doutor em sociologia estava concentrado em seu escritório, mergulhado em papéis e pensamentos, quando seu filho de apenas sete anos entrou, com a seriedade típica de quem vai fazer uma pergunta difícil. 


— Pai, um policial ou um juiz pode torturar um criminoso? 


— De jeito nenhum, filho. Toda forma de tortura é proibida. A própria Constituição brasileira diz isso. E a Comissão Internacional de Direitos Humanos também combate esse tipo de prática no mundo todo. 


— Comissão de quê? 


— É um grupo que existe para proteger as pessoas. Eles denunciam e investigam qualquer violação dos direitos básicos — como tortura, maus-tratos, discriminação... 


O garoto assentiu, parecendo satisfeito. E o pai, tranquilo, voltou aos seus textos sociológicos. 

Mas a calmaria durou pouco. 


Alguns dias depois, depois de ver na televisão reportagens sobre a pobreza no Brasil, o menino reapareceu no escritório com os olhos arregalados e a mente borbulhante. 


— Pai... passar fome, não ter onde morar, ficar sem remédio, sem escola boa... isso não é uma forma de tortura? 


O pai, pego de surpresa, começou a abrir a boca, mas não achou resposta imediata. 


— Porque se for, então tem muita tortura acontecendo, né? A Constituição e os Direitos Humanos não dizem que isso não pode? Vi outro dia na TV que os defensores dos direitos humanos entraram numa prisão pra ver se alguém estava sendo torturado..., mas por que eles não vão atrás de quem vive na rua, de quem passa fome em sua casa, de quem morre esperando na fila do hospital? Se é proibido... por que ninguém faz nada? E os representantes da lei...? 


Silêncio. Teórico renomado, mestre em crítica social, o pai buscava palavras, argumentos, estatísticas... e não achava nenhum que coubesse no tamanho da pergunta. 


Então, respirou fundo e apelou para uma resposta prática, ainda que não tão sociológica. 


— Filho... que tal um sorvete daqueles? Dois sabores, com calda e granulado. Do jeito que você gosta. 


— Vamos, pai! 









 
 
 

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